O sarampo chegou a Idaho pela porta principal, como viajante que sabe que a casa está com a fechadura quebrada. A taxa de vacinação do estado é a pior do país, com apenas 78,5% das crianças do ensino fundamental imunizadas no ano letivo 2024-2025. Para quem não sabe, a imunidade de rebanho contra o sarampo exige algo em torno de 95%. Ou seja, Idaho está operando com uma margem de segurança que não existe. O vírus não precisa de convite quando a janela está escancarada.
A narrativa fácil, a que os grandes veículos adoram repetir com aquele tom de quem explica aritmética para crianças, é a da ignorância. O povo do interior não entende de ciência, o povo rural é supersticioso, os religiosos são medievais. Conveniente, essa explicação. Ela isenta de culpa exatamente aqueles que deveriam se olhar no espelho. Porque há uma diferença fundamental entre a recusa nascida da ignorância e a recusa nascida da desconfiança, e confundir as duas é ou desonestidade intelectual ou preguiça analítica, e em ambos os casos é um desserviço.
Idaho é um estado com altíssimas taxas de educação domiciliar, forte tradição religiosa e uma cultura de autonomia individual que antecede qualquer controvérsia recente sobre vacinas. Mas foi nos últimos cinco anos que a desconfiança se industrializou. Durante a pandemia de Covid-19, médicos foram silenciados em plataformas digitais por contradizer protocolos oficiais que depois se provaram incorretos. Cientistas que levantaram questões sobre a origem do vírus foram tratados como conspiradores. Mandatos de vacinação foram impostos com a elegância de um decreto imperial, sem debate, sem nuance, sem espaço para objeção de consciência. As mesmas instituições que hoje imploram pela confiança popular foram as que, metodicamente, destruíram os alicerces dessa confiança.
Existe um paralelo histórico que ilumina bem essa situação. Quando a Igreja medieval declarou heresia tudo que contrariasse seu monopólio sobre a interpretação da realidade, ela não eliminou a dúvida. Ela a acumulou. E quando a pressão ficou grande demais, não foi um argumento que rompeu o dique, foi a percepção coletiva de que a instituição estava mais interessada em seu próprio poder do que na verdade que dizia defender. O resultado foi séculos de fragmentação e conflito. A lição não é que a autoridade estava errada em tudo, porque não estava. A lição é que a autoridade que não tolera questionamento eventualmente perde até o direito de dizer o que é óbvio.
O sarampo é perigoso. A vacina contra o sarampo funciona. Isso é fato estabelecido há décadas, sustentado por evidências robustas e replicáveis. Mas quando o aparato burocrático que recomenda a vacina é o mesmo que censurou médicos, que moveu o marco da imunidade de rebanho para cima e para baixo conforme a conveniência política, que tratou a dúvida como crime e o questionamento como desinformação, ele contamina com sua própria deslegitimação até as mensagens que são genuinamente corretas. É a tragédia do pastor e do lobo, só que desta vez o pastor usava jaleco branco e tinha um perfil verificado nas redes sociais.
Idaho não é um estado de lunáticos. É um estado que chegou à conclusão, por caminhos tortuosos e às vezes errados, de que não pode mais delegar o julgamento de risco para quem demonstrou, repetidas vezes, que o julgamento é moldado por interesses que não são os do cidadão comum. A resposta correta para isso não é outra campanha de comunicação gerenciada pelas mesmas agências que quebraram a confiança. A resposta, a única que realmente funciona, é reconstruir a credibilidade pela transparência, pelo debate aberto e pela humildade de admitir quando se errou. Enquanto isso não acontecer, o sarampo continuará encontrando portas abertas. E a culpa não será do povo.
Com informações da Ars Technica. A análise e opinião são do O Algoz.