A Novartis anunciou que seu candidato para diabetes tipo 1 falhou no ensaio clínico de fase avançada, aquele estágio em que o medicamento precisa provar, na carne dos pacientes reais, o que a hipótese elegante prometia no laboratório. Não provou. Anos de trabalho, montanhas de capital privado e uma pilha de expectativas foram para o ralo em um único comunicado. E é exatamente aqui, no fracasso limpo, que o capitalismo mostra o que tem de melhor: quem apostou perdeu, quem financiou engoliu, e ninguém precisou passar o boleto para a viúva do contribuinte.

Quer dizer, pensa comigo. A ciência séria é feita de tentativa e erro, e o erro é a regra, não a exceção. De cada dez moléculas promissoras que entram no funil, nove morrem no caminho, e a décima paga a conta das outras nove com juros. Esse é o preço da descoberta genuína. Quando o dinheiro é do acionista, o rigor é implacável, o ensaio é honesto e o placebo não é maquiado. Quando o dinheiro é da subvenção estatal, do BNDES da vida, do "fundo de inovação" bancado por imposto, o incentivo se inverte: o sucesso vira relatório para congresso, o fracasso vira sigilo, e a molécula ruim continua consumindo verba porque cortá-la significa admitir que o burocrata errou na aposta.

Olha, o mercado farmacêutico tem problemas gravíssimos, e boa parte deles vem justamente da promiscuidade regulatória, do lobby das grandes casas junto às agências, dos monopólios artificiais concedidos por patentes esticadas além do razoável, dos subsídios cruzados que blindam os incumbentes contra concorrentes menores. Nada disso, entretanto, tem a ver com o episódio de agora. O caso da Novartis é o mecanismo funcionando: uma companhia, ao apostar bilhões em uma tese científica, submete essa tese ao juízo brutal do ensaio randomizado, aceita o veredito e absorve a perda. Isso não é falha do sistema, é o sistema fazendo o serviço.

Compare com qualquer aventura pública nacional em pesquisa aplicada, dessas em que ministro anuncia com pompa a "solução brasileira" para tal doença e, cinco anos depois, ninguém pergunta o que aconteceu com a solução, com o dinheiro, com os pesquisadores contratados por indicação política e com os prazos que sempre escorregam para depois da próxima eleição. Ali não há ensaio de fase tardia que valha, porque não existe acionista bravo cobrando resultado, existe apenas o pagador de imposto que nem sabe que financiou o rombo. O que se vê é o corte de fita; o que não se vê é o sepultamento silencioso do projeto, três legislaturas depois, em uma nota de rodapé de relatório do tribunal de contas.

A queda das ações da Novartis é, no fundo, o preço saudável da verdade. Cada centavo evaporado hoje é sinal enviado ao ecossistema inteiro: aquela via terapêutica não funcionou como se esperava, ajustem seus modelos, redirecionem seus laboratórios, parem de perseguir aquele fantasma. Nenhum comitê central, por mais bem-intencionado, conseguiria transmitir essa informação com a mesma precisão e a mesma velocidade com que o pregão a transmitiu em uma manhã. Preço é conhecimento condensado, e prejuízo é o professor mais honesto que existe.

Fica a moral que o noticiário econômico raramente sublinha: o remédio para o diabetes tipo 1 continuará sendo perseguido, e provavelmente será encontrado, precisamente porque quem persegue arrisca capital próprio e responde por ele. No dia em que decidirmos que "pesquisa é coisa séria demais para deixar com o mercado", vamos ter fila no ministério, edital com cota de gênero para a molécula, comissão de ética partidária avaliando ensaio clínico e, ao final de uma década, nenhum medicamento novo, mas uma esplêndida coleção de seminários sobre inovação. Fracasso privado constrói ciência; fracasso público constrói burocracia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.