A Medicus Pharma recebeu na semana passada a famosa notificação de não conformidade da Nasdaq porque o preço de suas ações fechou abaixo de um dólar por trinta pregões consecutivos. Traduzindo do jargão financeiro para o português de gente: a empresa está valendo menos do que uma bala de goma na bolsa americana, e a operadora da bolsa, cumprindo regra que existe há décadas, mandou o recado protocolar. Tem cento e oitenta dias para recuperar o preço mínimo, e se não conseguir, sai da listagem. Fim. Sem drama, sem resgate, sem força-tarefa presidencial.
Repare na beleza do arranjo. Ninguém foi chamado para depor numa CPI, ninguém pediu pacote emergencial de socorro, nenhum ministro apareceu em rede nacional prometendo que o governo não deixaria a empresa afundar. A Nasdaq é uma instituição privada, com regras privadas, aplicadas de forma previsível a quem aceitou jogar aquele jogo. Quem compra ação de empresa listada sabe exatamente o que acontece quando o papel vira micharia. E o que acontece é justamente isso: o aviso chega, o prazo começa a correr, e o capital realoca-se para onde está sendo melhor empregado.
O contraste com o que fazemos por aqui deveria envergonhar qualquer brasileiro com dois neurônios conectados. Quando uma empresa grande afunda no Brasil, o que acontece? Aparece linha de crédito subsidiada, debênture comprada por banco público, desoneração de folha, renegociação de dívida com ágio invertido, e no limite o contribuinte paga a conta de um prejuízo que ele nem sabia que tinha feito. O mercado não seleciona os vencedores; o lobby seleciona. E o que era para ser destruição criativa vira zumbificação permanente, com empresas mortas andando por aí graças ao soro fisiológico do dinheiro alheio.
Há uma lição aqui que os defensores do intervencionismo financeiro fingem não entender. O preço baixo da ação não é o problema, é o diagnóstico. É o agregado das decisões de milhões de pessoas olhando para aquele negócio e concluindo, com o seu próprio dinheiro em risco, que ali não há futuro suficiente para justificar o capital empregado. Tentar consertar isso por decreto é como quebrar o termômetro para curar a febre. A Nasdaq entendeu há muito tempo que proteger a credibilidade do sistema vale mais do que proteger qualquer empresa individual que esteja falhando dentro dele.
E aqui vale seguir o rastro do dinheiro que não é seguido. Quem perde quando uma empresa some da bolsa? O acionista que apostou nela. Quem ganha quando ela é artificialmente mantida? Os executivos que continuam recebendo, os bancos que refinanciam a dívida, os consultores que cobram pelos planos de recuperação, e o governo que aparece nas fotos como salvador. Quem paga? O poupador que poderia ter direcionado seu capital para empresas produtivas, a empresa concorrente eficiente que não recebe o mesmo socorro, e o trabalhador que veria mais oportunidades num mercado onde o fracasso é punido de verdade.
A Medicus Pharma pode se recuperar ou não. Pode fazer grupamento de ações, apresentar novo medicamento, ser comprada por alguém maior, ou simplesmente desaparecer. Qualquer um desses desfechos é legítimo, porque todos saem da interação voluntária entre quem tem capital e quem tem projeto. O importante é que ninguém vai chegar de paraquedas com dinheiro de terceiros para reescrever o resultado. Se o Brasil aprendesse esta lição simples, aquilo que chamamos de economia deixaria de ser um hospital geriátrico de empresas mortas e voltaria a ser o que deveria ser: um campo aberto onde o bom vence e o ruim sai de cena com a dignidade do silêncio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.