Cinquenta e dois vírgula dois bilhões de reais. Esse é o tamanho do mercado de saúde do consumidor no Brasil em 2025, segundo levantamento divulgado pelo Valor. Traduzindo do economês para o português de rua: é quanto o cidadão tirou da carteira, depois de já ter pago imposto para sustentar o SUS, para comprar analgésico, antigripal, vitamina, protetor solar e toda sorte de medicamento de prateleira. O número cresce ano após ano, as multinacionais brindam com champanhe em Basileia, e os analistas de banco chamam isso de "oportunidade de investimento". Oportunidade para quem, exatamente, convém perguntar.
O fato de um mercado paralelo de automedicação movimentar mais do que o PIB de vários países é, antes de mais nada, um atestado de óbito silencioso do sistema público de saúde. Ninguém gasta cinquenta bilhões comprando dipirona porque está sobrando dinheiro no bolso. Gasta porque marcar consulta no posto demora três meses, porque a fila do especialista tem nome de novela mexicana, porque o remédio "gratuito" da farmácia popular está em falta há seis semanas. O consumidor brasileiro não escolheu esse mercado; foi empurrado para ele pela falência operacional de um aparato estatal que consome quase um trilhão por ano e devolve papelada.
E aqui entra a parte que os jornalões teimam em não escrever. Quem lidera o ranking? Hypera, EMS, Sanofi, Bayer, Kenvue. Conglomerados que dependem visceralmente da ANVISA, do regulador de propaganda, das patentes, das políticas de genéricos. Não é mercado livre, nunca foi. É um setor capturado, onde barreira regulatória funciona como fosso do castelo: mantém o incômodo dos concorrentes menores do lado de fora e garante margem de quarenta por cento para quem já está dentro. Siga a trilha do dinheiro dos lobbies em Brasília e o enigma se resolve sozinho.
Tem ainda o detalhe que ninguém comenta em almoço de domingo. Boa parte desse crescimento vem de suplemento, nutracêutico, "bem-estar". Ou seja, o brasileiro está automedicando não apenas a dor de cabeça, mas a ansiedade, a insônia, o cansaço crônico de viver numa economia que empurra imposto goela abaixo e devolve inflação. A pílula da felicidade virou categoria de varejo. Alguém com dois neurônios funcionando deveria se perguntar o que acontece com uma sociedade em que o consumo de ansiolítico cresce em progressão geométrica e o produto interno bruto engatinha na progressão aritmética. A resposta, evidentemente, não cabe na planilha do IBGE.
O bom cidadão regulatório, sentado no Ministério da Saúde, vê esse movimento e tem um reflexo pavloviano: precisa regular mais, taxar mais, exigir mais receita, criar mais CID para mais coisa. É o clássico que não se vê na conta final. Cada nova exigência aumenta o custo do entrante, consolida o oligopólio, encarece o produto final e expulsa do mercado legal o consumidor mais pobre, que vai parar no camelô comprando remédio vencido por metade do preço. A boa intenção do burocrata é a estrada pavimentada por onde passa o carro funerário da concorrência.
Cinquenta e dois bilhões não são sintoma de saúde econômica. São a fatura que o brasileiro paga por viver num país onde a máquina pública fracassou em fornecer aquilo que cobra caro para oferecer, e onde o mercado que sobrou como alternativa já nasceu capturado pelos mesmos padrinhos de sempre. Não existe almoço grátis; no Brasil, existe almoço que você paga três vezes, e ainda sai com fome.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.