O caso é quase cômico se não fosse revelador. A MercadoLibre publica receita recorde, mostra crescimento de dois dígitos em praticamente toda linha relevante, expande crédito, expande logística, expande pagamentos, e a recompensa do mercado é uma queda de 7% em um único pregão porque a última linha do balanço, o tal lucro líquido, ficou alguns centavos abaixo do que os profetas de Wall Street haviam decretado. Quer dizer, a empresa fez tudo certo no mundo real e errado no mundo das planilhas. E adivinhe qual dos dois mundos manda no preço da ação.

Olha, isso não é falha do capitalismo, é sintoma de algo mais profundo. Quando uma companhia investe pesado em expansão, em infraestrutura própria de entrega, em concessão de crédito num continente onde bancar é caro porque o Estado torna caro, é natural que a margem de curto prazo sofra. Investimento consome lucro hoje para produzir lucro amanhã. Sempre foi assim, em qualquer atividade produtiva, desde que o primeiro padeiro decidiu comprar um forno maior. O que mudou foi a tirania do trimestre, esse ritual onde executivos fingem otimismo, analistas fingem ciência, e fundos passivos compram e vendem bilhões com base em décimos de centavo de diferença.

Me diz uma coisa, alguém parou para olhar o que não se vê nesse balanço? A MercadoLibre opera num continente onde o juro real é confiscatório, onde a inflação corrói a moeda local em ritmo argentino, onde a carga tributária brasileira sufoca qualquer empresa que ouse crescer, e ainda assim entrega receita recorde. Cada real de lucro que ela produz passa antes pelo pedágio do Leão, pelo pedágio do INSS, pelo pedágio do ICMS interestadual, pelo pedágio do PIS-Cofins, e ainda paga a conta da Selic estratosférica que financia a gastança em Brasília. O verdadeiro escândalo não é o lucro abaixo do consenso, é o tamanho do consenso que o governo já comeu antes do acionista enxergar a sobra.

E aqui entra a parte que ninguém quer dizer em voz alta. Os mesmos analistas que punem a empresa por margem comprimida aplaudem entusiasmados quando o Banco Central anuncia mais um corte ou alta de juros, como se política monetária fosse esporte e não confisco silencioso. Aplaudem o pacote fiscal, aplaudem o crédito subsidiado pelo BNDES, aplaudem o programa social financiado com imposto inflacionário, e depois se espantam que empresas de verdade, que produzem riqueza de verdade, tenham margens espremidas. A conta vem, sempre vem, e quem paga é quem cria valor, não quem o redistribui.

Há ainda o detalhe geopolítico. Uma empresa latino-americana listada em Nova York, com operação relevante em Brasil, México e Argentina, está exposta simultaneamente ao humor do Federal Reserve, ao populismo fiscal de Brasília, à dolarização caótica de Buenos Aires e à reforma judicial mexicana. Cada uma dessas variáveis é decidida por gente que nunca empreendeu, nunca arriscou capital próprio, nunca enfrentou um cliente insatisfeito, mas tem o poder de evaporar bilhões em valor de mercado com uma canetada. O empresário planeja em décadas, o burocrata legisla em meses, o trader reage em milissegundos, e o resultado é essa esquizofrenia em que crescimento real é punido e contabilidade criativa é premiada.

No fim das contas, a queda de 7% diz mais sobre o mercado financeiro contemporâneo do que sobre a MercadoLibre. Diz que estamos numa era em que a percepção vale mais que o fato, em que o consenso de doze analistas de gravata vale mais que a entrega concreta de milhões de pacotes, em que o algoritmo que vende automaticamente quando o lucro vem dois centavos abaixo do esperado não distingue entre uma empresa em decadência e uma empresa investindo no próprio futuro. Quem produz colhe. Quem especula no curto prazo, esse só descobre o valor das coisas depois que as perde.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.