Vinte e uma horas de negociação. Um vice-presidente americano voando até o Paquistão para sentar na mesa com o Irã. E o resultado, anunciado ontem pelo próprio JD Vance com a voz de quem passou a madrugada acordado sem ter o que mostrar: nenhum acordo. O cessar-fogo frágil que os dois países tinham costurado em 7 de abril, e que fez Wall Street explodir de alegria e o petróleo despencar, agora está agonizando. Vence em 22 de abril. Donald Trump, na saída, anunciou bloqueio naval ao Estreito de Ormuz. E os mercados de futuros, que passaram a semana comemorando paz que não existia, abrem esta segunda-feira com a conta chegando.

O episódio revela algo que qualquer pessoa com memória funcional já sabia: o preço que o mercado pagou pela euforia do cessar-fogo foi construído sobre informação que nunca foi verificada. Quando o petróleo caiu 16,4% num único dia e o Dow teve a melhor sessão do ano, os operadores estavam apostando num acordo que, na verdade, era apenas uma pausa para respirar. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta, nunca deixou de estar sob controle efetivo de Teerã. A questão nuclear não foi sequer encostada. O que se comemorou foi o silêncio dos canhões por duas semanas, não a resolução do problema. Otimismo construído em areia fina, como sempre.

Siga o dinheiro e você entenderá melhor do que qualquer comunicado oficial. Goldman Sachs reporta resultados amanhã, segunda-feira. JPMorgan, Citigroup e Wells Fargo reportam na terça. Bank of America na quarta. Os analistas chegaram a esta temporada de balanços com uma narrativa sedutora: crescimento de 13% nos lucros do S&P 500, sexto trimestre consecutivo de expansão de dois dígitos, o "super ciclo" de fusões e aquisições finalmente chegando, ambiente de juros no patamar neutro de 3,5% a 3,75%, uma espécie de céu na Terra corporativo. Essa narrativa foi construída antes de seis semanas de guerra no Oriente Médio, com o Estreito de Ormuz bloqueado intermitentemente, pressão nos fretes, choque de incerteza nas cadeias de abastecimento e um vice-presidente americano dormindo mal num hotel em Islamabad. O mundo real tem o hábito irritante de não caber em projeções otimistas.

O que ninguém está calculando com a seriedade que merece é o efeito de segunda ordem. Não é só o petróleo. É a incerteza sistêmica que se instalou em seis semanas de conflito, que contamina decisões de investimento, suspende operações de fusão e aquisição que dependem de previsibilidade, e empurra capital para ativos de refúgio que rendem menos mas dormem melhor. Os grandes bancos americanos podem ter tido um primeiro trimestre razoável no papel, porque boa parte do período anterior ao conflito foi relativamente estável. Mas os CEOs que falarão com analistas nos próximos dias vão ter que responder sobre perspectivas de segundo trimestre num cenário onde Trump ameaça bloquear militarmente o principal corredor de petróleo do planeta. Projetar crescimento em cima disso exige ou coragem ou criatividade contábil.

Há uma lógica perversa operando aqui que merece ser nomeada. O mercado que reagiu com euforia ao cessar-fogo estava apostando em informação que nenhum operador individual poderia verificar, apenas agregar. Quando o preço coletivo disse "paz", ele estava errado, não por desonestidade, mas porque a informação disponível era incompleta e o incentivo para acreditar na boa notícia era enorme. Agora, com a falha das negociações confirmada e Trump escalando a retórica para bloqueio naval, o mercado vai ter que reprecificar. E reprecificação de ativos que subiram rápido demais é sempre mais rápida e mais dolorosa do que a subida. A temporada de balanços, que em condições normais seria um catalisador positivo, chega agora como uma segunda variável jogada no meio de um incêndio. A segunda-feira não vai ser gentil com quem comprou a narrativa da paz e ainda não vendeu.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.