Friedrich Merz aterrissa no Brasil com a elegância de quem veio fazer caridade e a agenda de quem veio fazer compras. O discurso é o de praxe, a Alemanha pode fornecer tecnologia, o Brasil tem o potencial dos metais críticos, juntos construiremos uma parceria estratégica rumo à transição energética. Traduzindo do diplomatês para o português, Berlim precisa desesperadamente de lítio, cobalto, nióbio e terras raras porque apostou o PIB numa matriz verde subsidiada que virou pó depois que o gás russo acabou, e descobriu, horrorizada, que a China controla setenta por cento do refino global dessas pedrinhas. Alguém tem que pagar essa conta, e o eleito da vez é o subsolo brasileiro.

A matemática do arranjo é velha conhecida de quem estudou qualquer página de história econômica latino-americana. Nós exportamos minério bruto, eles agregam valor, transformam em bateria, em turbina, em chip, e nos vendem o produto final por dez, vinte, cem vezes o preço do insumo. É o mesmo desenho colonial de quinhentos anos atrás, só que agora com planilha de Excel, relatório de sustentabilidade e coletiva no Palácio do Planalto. Chamam isso de parceria porque parceria soa melhor do que extração assimétrica com aquiescência do nativo.

E note bem o detalhe que ninguém comenta. Quando um governo europeu diz que vai fornecer tecnologia, ele está dizendo que vai fornecer empréstimos do próprio banco estatal alemão, subsidiados pelo contribuinte alemão, para que empresas alemãs vendam equipamento alemão a projetos brasileiros que serão tocados, na prática, por consórcios alemães. O contribuinte europeu financia a exportação da própria indústria, o brasileiro recebe a tecnologia com cláusulas de propriedade intelectual blindadas, e no fim da cadeia, quem paga o preço inflado do produto final é o consumidor dos dois lados do Atlântico. Todo mundo ganha, menos quem trabalha.

O que não se vê nessa fotografia diplomática é o custo invisível que se acumula silenciosamente. Enquanto o governo brasileiro dança conforme a música de Berlim e promete abrir reservas minerais em nome da transição energética, a mineração independente nacional segue afogada em licenciamento ambiental, insegurança jurídica e regulação que muda a cada ministro. A multinacional estrangeira chega com tapete vermelho, passa na Casa Civil, tira foto com o presidente e sai com concessão. O empresário brasileiro médio que tentar minerar o mesmo nióbio espera oito anos por uma licença que talvez nunca venha. Não é fiscalização ambiental, é seleção artificial de vencedores.

Há ainda a piada cósmica de chamar isso tudo de sustentável. Extrair lítio com escavadeira a diesel, transportar em navio cargueiro a óleo pesado, refinar em fábrica movida a carvão polonês e montar bateria na China com mão de obra quase gratuita, tudo para alimentar um carro elétrico que um alemão classe média comprará com subsídio do Estado para se sentir virtuoso no trânsito de Munique. A pegada de carbono real dessa cadeia faria qualquer termelétrica brasileira parecer um spa ecológico. Mas o marketing é impecável, e marketing é a única coisa que importa na economia da virtude encenada.

O Brasil tem, de fato, uma riqueza mineral que deveria ser o alicerce de uma revolução industrial própria, não a garantia colateral da reindustrialização alheia. Isso, porém, exigiria segurança jurídica, baixa carga tributária, câmbio estável, abertura para capital privado nacional e internacional em condições iguais, e um Estado que entendesse seu papel de árbitro e não de sócio preferencial do estrangeiro bem relacionado. Como nada disso existe, sobra o roteiro velho, o aperto de mão, a foto sorridente, o comunicado conjunto e, meses depois, a notícia de que mais uma joint venture foi fechada com condições que nenhum jornalista se deu ao trabalho de ler.

Merz volta para casa com o contrato no bolso. Lula posa como estadista verde. E o brasileiro, sempre ele, acorda amanhã para pagar imposto sobre o minério que saiu do seu próprio quintal.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.