Friedrich Merz aparece de novo no microfone para repetir a ladainha de sempre, que a Europa apoia uma OTAN forte e compartilha das metas dos Estados Unidos sobre o Irã, e o jornalismo de banco trata isso como notícia. Notícia seria se um chanceler alemão dissesse o contrário, mas isso não acontece desde 1945, e provavelmente não acontecerá tão cedo. O que está em jogo aqui não é diplomacia, é coreografia, e a coreografia é antiga, ensaiada e paga em euros que saem do bolso de quem produz para sustentar uma estrutura militar cuja existência já não se justifica há pelo menos três décadas.
Convém perguntar, com a paciência de quem já viu esse filme, qual foi exatamente a última vez que a OTAN venceu alguma coisa. O Afeganistão virou pó, a Líbia virou mercado de escravos a céu aberto, a Ucrânia virou campo de testes para indústria bélica americana financiada por contribuintes europeus, e o saldo dessa sequência de catástrofes é Merz vir a público dizer que precisamos de uma OTAN ainda mais forte. Mais forte para quê, exatamente? A pergunta é proibida, claro, porque a resposta envolveria reconhecer que a aliança virou um arranjo de empregos para generais e contratos para fornecedores, sustentado pela ficção de que o mundo está a um passo de ser invadido por algum vilão de filme.
O caso iraniano é o exemplo perfeito de como a política externa europeia perdeu qualquer pretensão de autonomia. Berlim e Paris vinham gastando saliva há anos com o acordo nuclear, ergueram canais de pagamento alternativos, fingiram que tinham voz própria, e bastou uma mudança de humor em Washington para que tudo isso fosse jogado no lixo da história. Agora a meta é a meta americana, o inimigo é o inimigo americano, e a sanção é a sanção americana, com o pequeno inconveniente de que quem perde mercado, energia e contratos é o industrial alemão, não o lobista do Beltway. Siga o dinheiro e você encontra sempre o mesmo padrão, custos socializados na Europa, lucros privatizados do outro lado do Atlântico.
Há um aspecto ainda mais grave, e quase ninguém fala dele, que é a destruição lenta do que sobrou de soberania orçamentária no continente. Cada compromisso de gasto militar adicional, cada nova rodada de ajuda externa, cada pacote emergencial é dinheiro que não vai para a indústria que está fechando, para a energia que está racionada, para a infraestrutura que está caindo aos pedaços. O alemão médio paga uma das cargas tributárias mais altas do mundo desenvolvido para receber em troca trens atrasados, escolas decadentes e um chanceler que viaja para fazer reverência. Isso não é aliança, é tributo, e tributo a quem manda tem nome técnico desde a Idade Média.
O mais cômico, se não fosse trágico, é o tom solene com que essas declarações são feitas, como se houvesse alguma escolha real sendo anunciada. Não há. A classe política europeia foi formada por três gerações inteiras dentro de instituições que existem precisamente para garantir esse alinhamento automático, e qualquer um que ouse questionar é imediatamente acusado de ser agente disso, daquilo, do outro. O resultado é uma elite que confunde subserviência com responsabilidade, dependência com pragmatismo, e covardia com estadismo. Merz não está fazendo política externa, está prestando contas, e a diferença entre as duas coisas é exatamente a diferença entre um país livre e uma província.
Enquanto isso, o cidadão que financia toda essa encenação assiste à própria moeda derreter, à própria indústria fugir para a China e para os Estados Unidos, à própria conta de luz dobrar, e ouve do seu chanceler que o problema urgente do momento é o programa nuclear de um país do outro lado do mundo. Há algo profundamente doente numa civilização que aceita esse tipo de inversão sem rir alto, e o riso, aliás, talvez seja a única arma política que ainda resta a quem percebeu a farsa. Quando o tributo for chamado pelo nome certo, metade do problema já estará resolvida.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.