O pregão mexicano fechou com o S&P/BMV IPC recuando 0,11%, queda tão modesta que faria rir se não fosse o sintoma de algo bem maior. Os comentaristas vão atribuir o movimento a "ajustes técnicos", "realização de lucros", "cautela com o exterior", esse vocabulário oco que serve para tudo e não explica nada. Quer dizer, quando o índice sobe 0,11% é "otimismo dos investidores", quando cai 0,11% é "preocupação macro", e ninguém se pergunta por que diabos uma bolsa inteira oscila ao sabor de centésimos como um termômetro num quarto sem janela.
O que ninguém quer dizer é que esses movimentos minúsculos no fechamento revelam mercados anestesiados pela liquidez global, viciados em juros artificiais e dependentes de bancos centrais que viraram operadores de plantão. O capital mexicano não está precificando produtividade, inovação ou expectativa empresarial genuína; está precificando o próximo gesto do banqueiro central americano, a próxima fala do colega mexicano, a próxima planilha de algum burocrata que decidirá, sentado em sua sala climatizada, quanto vai custar o dinheiro de milhões de pessoas que nunca ouviram falar dele.
Olha, isso não é mercado. Isso é simulacro de mercado. Mercado de verdade é aquele em que preços refletem decisões descentralizadas de produtores e consumidores, expectativas reais sobre lucros reais, alocação de capital baseada em conhecimento disperso entre milhões de agentes. O que se vê hoje na Bolsa Mexicana de Valores, e em praticamente todas as bolsas do mundo, é coreografia de algoritmos respondendo a sinais monetários falsificados. O preço dos ativos perdeu vínculo com o valor das empresas há tempos, e ninguém se incomoda porque o jogo enriquece quem está perto da torneira.
Me diz uma coisa: você consegue nomear três empresas mexicanas que cresceram nos últimos cinco anos porque inovaram, porque conquistaram consumidores, porque produziram algo que o mundo quis comprar? Provavelmente não. Mas pode citar dezenas de gigantes que prosperaram via contratos estatais, regulação capturada, monopólios protegidos e crédito subsidiado. É o capitalismo de compadrio na sua forma latino-americana mais refinada, em que o IPC sobe ou cai conforme a generosidade do tesouro e a paciência dos gringos com o peso.
O que se vê é a queda de 0,11%. O que não se vê é o desemprego permanente das empresas que não nasceram porque o capital foi sugado pelo governo financiando déficit; são as pequenas indústrias que fecharam porque não conseguiram competir com subsidiadas; é a poupança real do trabalhador mexicano corroída lentamente por uma inflação que os índices oficiais maquiam. A bolsa fechando estável é a melhor propaganda do regime, e regime nenhum sobrevive sem propaganda.
Enquanto a imprensa econômica trata pregões assim como notícia de página interna, a verdadeira história continua escondida: o México, como o Brasil, como toda a América Latina, segue refém de um modelo que troca prosperidade real por estabilidade contábil. Um dia a conta chega, e quando chegar, ninguém vai lembrar dos 0,11% de hoje. Vão lembrar de quem avisou e foi chamado de pessimista.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.