A presidente mexicana aterrissou em Barcelona com o sorriso profissional de quem sabe que a câmera está ligada, e o primeiro-ministro espanhol a recebeu com o mesmo entusiasmo ensaiado de um gerente de banco tratando cliente VIP. Oito anos separam esta visita da anterior, e o motivo do intervalo não é mistério para ninguém que acompanhou o noticiário: o antecessor dela passou o mandato inteiro exigindo que a Espanha pedisse desculpas pela conquista, como se Hernán Cortés ainda estivesse vivo para assinar o recibo. Agora, com novos rostos no comando mas o mesmo manual debaixo do braço, os dois governos descobriram que querelas históricas atrapalham o fluxo de capital e decidiram, muito pragmaticamente, engavetar o passado.

Convém lembrar que a Espanha tem no México um dos mercados mais rentáveis do mundo hispânico. Bancos espanhóis sangram bilhões de pesos por ano das famílias mexicanas, gigantes de energia e telecomunicações operam com margens que fariam corar qualquer monopolista europeu, e tudo isso depende, minuciosamente, da boa vontade do governo mexicano. Quando dois líderes politicamente aparentados se encontram para estreitar laços, traduza: estão ajustando o cano do oleoduto corporativo que liga Madri à Cidade do México. Alguém precisa garantir que as concessões continuem, que as licitações sigam com a mansidão de sempre, e que os reguladores permaneçam convenientemente distraídos.

Há uma fraternidade ideológica que precisa ser sublinhada, porque ela explica muita coisa. Os dois governos pertencem à mesma família política que encara o mercado como adversário a ser domado, o empreendedor como suspeito em liberdade condicional e o Estado como pai provedor de quem não sabe viver sem tutela. Ambos administram economias com inflação corroendo o salário do trabalhador comum, déficit público crescente e a convicção teimosa de que a saída para qualquer problema é mais gasto, mais imposto, mais programa social batizado com nome pomposo. É natural que se encontrem, se reconheçam e se apoiem; estão presos no mesmo barco furado e descobriram que é mais fácil cantar em dueto enquanto afunda do que remar sozinhos.

A parte que ninguém menciona na cerimônia é a conta. Toda vez que dois governos se abraçam e anunciam parcerias estratégicas, investimentos históricos e cooperação aprofundada, há duas populações que vão financiar a brincadeira sem jamais terem sido consultadas. O contribuinte mexicano paga via impostos as facilidades concedidas às multinacionais espanholas, o contribuinte espanhol paga via transferências e garantias públicas as aventuras empresariais de suas gigantes no exterior, e os dois conjuntos de cidadãos permanecem convencidos, graças à cobertura dócil da imprensa, de que estão vivendo um momento histórico de integração internacional. Integração do quê, exatamente? Das elites que se beneficiam, certamente. Do povo que paga, jamais.

Me diz uma coisa: em qual universo paralelo duas economias com problemas estruturais idênticos produzem, ao se aliarem, soluções em vez de duplicar problemas? É o mesmo raciocínio daquele amigo endividado que resolve pedir emprestado ao outro amigo endividado para quitar um terceiro amigo endividado. O problema não desaparece, apenas muda de endereço, ganha juros no caminho e termina em litígio. A diferença é que aqui os amigos são chefes de Estado, os valores têm nove zeros e a fatura será paga pelas próximas três gerações de trabalhadores que não participaram de decisão alguma.

Chame de visita histórica quem quiser. Para quem tem olhos abertos, é apenas mais um capítulo daquela tradição antiga e honrada do poder se auto-celebrando no salão nobre enquanto o cidadão comum, lá embaixo, ainda tenta entender por que a conta de luz subiu de novo.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.