A notícia veio embrulhada em linguagem de relações públicas, com ares de presente ao consumidor, mas qualquer um que acompanhe o setor de games há mais de dez minutos percebeu o óbvio: a Microsoft não cortou preço porque ficou boazinha, cortou porque a conta não fechava. Game Pass foi vendido ao mundo como o Netflix dos jogos, aquela utopia em que você paga uma mensalidade modesta e recebe, por passe de mágica, centenas de títulos que custariam milhares de reais no varejo. Faltava alguém perguntar quem, exatamente, pagava a diferença entre o que o assinante desembolsava e o que os estúdios precisavam receber para continuar existindo.

A resposta está escondida nos balanços. A Microsoft comprou a Activision por quase oitenta bilhões de dólares, um número que só faz sentido se o plano for canibalizar o modelo tradicional de venda de jogos e forçar o mundo inteiro para dentro do seu jardim murado. Colocar Call of Duty no Game Pass no dia do lançamento foi a isca. A isca, porém, custa caro, e quando o caixa começa a reclamar, a primeira coisa que vai embora é justamente o benefício que tinha sido vendido como revolucionário. Agora o jogador paga menos na mensalidade, ótimo, só que perde o acesso antecipado ao produto que justificava a assinatura. Dão com uma mão, tiram com a outra, e o consumidor desavisado acha que ganhou.

Há uma lição aqui que transcende o universo dos videogames. Todo modelo de negócio que promete abundância ilimitada por preço simbólico está escondendo um subsídio cruzado em algum canto da operação. No streaming de música foi o artista independente que ficou com migalhas para que o assinante pagasse vinte reais por mês. No streaming de vídeo é a inflação anual disfarçada de reajuste e a enxurrada de anúncios que voltou pela porta dos fundos. No Game Pass era o caixa gigantesco da Microsoft bancando prejuízo estratégico para matar a concorrência. Quando o prejuízo deixa de ser estratégico e vira rotina, a realidade cobra o pedágio, e o pedágio sempre cai no colo de quem está na ponta.

O mais interessante é observar a reação do mercado, que tratou a notícia como vitória do consumidor. É o tipo de leitura que só sobrevive porque ninguém pergunta o que se deixou de ver. Não se vê o desenvolvedor indie que perdeu espaço porque não tinha como competir com o catálogo inchado do serviço. Não se vê o estúdio médio que fechou porque o modelo de assinatura empurrou o valor percebido dos jogos para perto de zero. Não se vê a próxima geração de títulos que não será feita porque o retorno agora passa por agradar um algoritmo de retenção de assinantes, não mais o jogador que gastava oitenta dólares num lançamento porque acreditava que valia a pena.

E tem ainda o detalhe político, que ninguém quer tocar. Um oligopólio de três ou quatro plataformas decidindo o que o mundo joga, assiste e ouve não é um acidente do capitalismo, é o oposto dele. É capitalismo de compadrio digital, em que regulador se torna parceiro, concorrente vira aquisição, e o consumidor acaba com menos escolha embrulhada em papel de presente com a palavra conveniência escrita em negrito. A Microsoft pode até ter reduzido o preço hoje, mas já garantiu o poder de aumentá-lo quando quiser amanhã, porque as alternativas foram sendo comidas uma a uma ao longo da década.

No fim, o corte de preço do Game Pass é menos uma boa notícia e mais um recibo. Recibo de que o experimento de transformar jogos em utility pública privada encontrou seu limite econômico, e que a festa só continua enquanto houver trouxa suficiente para financiar o próximo round. Quem acha que ganhou desconto, na verdade assinou um contrato de fidelidade com uma plataforma que agora sabe exatamente quanto pode apertar sem perder o rebanho. Não existe almoço grátis, e no caso dos games, o almoço está ficando cada vez mais caro justamente à medida que dizem que está barato.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.