Militares israelenses confirmaram nesta segunda que o Hezbollah disparou foguetes contra posições das Forças de Defesa no sul do Líbano, rompendo mais uma das infinitas versões de trégua que a diplomacia internacional insiste em chamar de acordo. É curioso como o mesmo grupo que supostamente foi desmantelado em 2024, que supostamente perdeu comando, estrutura e arsenal, ainda tem foguetes sobrando para lançar contra soldados em território que, pelos tratados, deveria estar desmilitarizado. Ou os relatórios de vitória foram ficção, ou alguém continua reabastecendo o estoque pela porta dos fundos. As duas hipóteses são igualmente reveladoras.
Quando um grupo paramilitar sobrevive a bombardeios, sanções, assassinatos de liderança e a destruição anunciada de sua rede logística, e ainda assim dispara foguetes, a pergunta honesta não é militar, é contábil. De onde vem o dinheiro? De onde vem o armamento? Quem assina a nota fiscal? Siga a trilha do petrodólar iraniano, passe pelos portos sírios, pelas rotas de contrabando que ninguém ousa fechar porque fechá-las exigiria confrontar patrocinadores conhecidos, e você chega ao mesmo lugar onde sempre se chega nessas guerras eternas: a um arranjo rentável para burocracias militares, fabricantes de armas e think tanks de ambos os lados do Atlântico.
Há algo quase cômico no ritual. O foguete cai, o porta-voz militar convoca coletiva, o chanceler europeu lamenta, o Departamento de Estado ameaça sanções que não serão aplicadas, a ONU emite nota que ninguém lê, e dentro de setenta e duas horas o ciclo recomeça. O que o telejornal mostra é o foguete, a cratera, o soldado ferido. O que ninguém mostra é o orçamento bilionário aprovado discretamente em Washington, o pacote de ajuda que transita por Bruxelas, a rubrica humanitária que financia indiretamente a mesma infraestrutura que depois precisará ser bombardeada. O que se vê é o míssil. O que não se vê é o contracheque.
Diga-se o óbvio que ninguém mais diz: nenhum dos contribuintes que bancam essa engrenagem foi consultado sobre o assunto. O cidadão americano médio, o aposentado alemão, o pequeno comerciante brasileiro que paga imposto sobre imposto, todos participam compulsoriamente do financiamento de uma guerra que não é deles, sobre uma fronteira que não é deles, por razões que ninguém mais consegue articular sem recorrer a clichés da Guerra Fria. Chame de solidariedade atlântica, chame de defesa da ordem internacional, chame do nome que quiser. Tirar dinheiro de uns para dar a outros sem consentimento tem nome antigo, e não é bonito.
A ironia maior é que cada rodada dessa novela fortalece exatamente o que ela promete combater. O Hezbollah se legitima como resistência, o governo israelense se legitima como vítima permanente, o Irã se legitima como patrono necessário, e todos os três sobrevivem politicamente graças ao inimigo que dizem querer destruir. É um mercado de proteção mútua disfarçado de conflito existencial. Os generais têm promoção garantida, os fornecedores têm contrato renovado, os políticos têm pauta para não discutir inflação, e o civil libanês continua enterrando filhos enquanto o civil israelense continua correndo para o abrigo. Todo mundo lucra, menos quem sangra.
O cessar-fogo que não cessa fogo é, no fundo, o produto mais vendido da diplomacia moderna, e funciona porque precisa funcionar. Se houvesse paz de verdade, fechariam bases, cortariam verbas, demitiriam burocratas. Ninguém nessa cadeia tem incentivo para isso. Enquanto o foguete cair no sul do Líbano, o cheque cairá no norte de Washington, e o brasileiro comum continuará pagando imposto para financiar guerras que ele não entende, não quis, e nas quais ninguém sequer fingiu perguntar sua opinião. A paz é cara, mas a guerra contínua é infinitamente mais lucrativa para quem decide.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.