O governo francês resolveu proibir a entrada do ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, em território nacional. Anunciou a decisão com aquele ar solene de quem acabou de salvar a civilização, como se barrar um político estrangeiro no aeroporto Charles de Gaulle fosse o equivalente moderno a parar os tanques nazistas em Verdun. A justificativa oficial fala em declarações incompatíveis com os valores da República. A justificativa real, essa, mora em outro lugar, e não precisa de muito faro para encontrar.
Olha, qualquer pessoa que tenha acompanhado a demografia eleitoral francesa nos últimos vinte anos sabe que existe um bloco de votos que o Eliseu não pode perder sob hipótese alguma, e esse bloco não tem absolutamente nenhuma simpatia por ministros israelenses linha-dura. O gesto é apresentado como ética, mas tem o cheiro inconfundível de cálculo eleitoral travestido de princípio. Quer dizer, se o critério para banir estrangeiros fosse mesmo declarações incompatíveis com valores republicanos, metade dos chefes de Estado africanos e árabes que desfilam em Paris com tapete vermelho jamais conseguiriam visto de turista.
Há ainda a questão de fundo que ninguém quer encarar de frente. Quando um Estado começa a decidir quais autoridades estrangeiras podem ou não pisar em seu solo com base em opiniões políticas, e não em atos criminosos comprovados em tribunal, ele está dizendo na cara dura que existe uma linha ideológica oficial. Quem está dentro circula. Quem está fora fica do lado de lá da fronteira. Isso já tem nome na história, e nenhum dos exemplos passados terminou bem para a liberdade de imprensa, de movimento ou de qualquer outra coisa que se queira chamar de liberdade.
O detalhe saboroso é o silêncio seletivo. Os mesmos diplomatas que descobrem repentinamente uma vocação ética para barrar um ministro de uma democracia parlamentar não tiveram, em momento algum, o mesmo escrúpulo diante de ditadores que mandam dissidentes para campos de reeducação, ou regimes teocráticos que enforcam mulheres por andarem sem véu. A República, ao que parece, tem indignação modular, ativada apenas quando o custo político de não tê-la ultrapassa o custo político de exercê-la.
E aqui chegamos ao ponto que interessa ao leitor brasileiro que assiste a tudo de longe. Quando um governo se arroga o direito de fazer triagem ideológica de quem entra em seu país, a próxima triagem é a de quem fala dentro do país, e depois a de quem pensa dentro do país. O caminho está mapeado em letras garrafais há pelo menos dois séculos, e o fato de ninguém querer ler o mapa não muda o destino para o qual o trem está indo. A diferença entre uma democracia liberal e uma autocracia educada está justamente na recusa em usar o poder estatal como instrumento de pureza ideológica, e a França, hoje, acaba de cruzar essa linha com sorriso no rosto e taça de Bordeaux na mão.
O resto é teatro. Aplauso da plateia certa, indignação da plateia errada, manchete por quarenta e oito horas, e a estrutura de poder seguindo intocada, mais robusta do que estava ontem. É assim que se constrói, sem alarde nenhum, o despotismo de gravata e perfume.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.