Quando o sujeito do café com leite intelectual abre a boca para defender fronteira aberta, ele invariavelmente comete o mesmo truque de mágico ruim: faz desaparecer o Estado de bem-estar do palco e pede aplauso pela liberdade de movimento. Olha, num mundo sem imposto compulsório, sem creche pública, sem hospital bancado por terceiros, sem cota, sem habitação social, sem benefício atrelado a residência, a discussão sobre migração seria mesmo uma questão entre indivíduos, proprietários e contratos privados. Acontece que esse mundo não existe. O que existe é uma estrutura que pega o dinheiro de quem trabalha, processa o recurso numa máquina burocrática que perde metade no caminho, e distribui o resto conforme o cálculo eleitoral do gestor da vez. Pedir fronteira aberta dentro desse arranjo não é liberdade, é convite para terceiros financiarem compulsoriamente a entrada de quem nunca contribuiu para o pote.

O ponto que os liberais de boutique se recusam a enxergar é elementar e qualquer dona de casa entende em trinta segundos: a casa tem porta, a chácara tem cerca, o condomínio tem porteiro, e ninguém chama isso de fascismo. Chama de bom senso. A nação, gostem ou não os universalistas de aeroporto, funciona como propriedade coletiva sedimentada por gerações que construíram instituições, língua comum, costumes negociados no atrito do dia a dia e um arranjo de confiança mútua que permite estranhos cooperarem sem precisar contratar advogado a cada esquina. Esse capital invisível leva séculos para se formar e três décadas de política migratória estúpida para evaporar. Quem propõe dissolver a fronteira sem antes dissolver o Estado parasita está, na prática, propondo socializar o custo de uma decisão que ele tomou sozinho na bancada do think tank.

Siga o dinheiro, sempre. Quem ganha com migração massiva descontrolada? Em primeiro lugar, o empresário de compadrio que adora mão de obra barata sem ter que negociar com o trabalhador nacional sindicalizado, e que depois empurra para o contribuinte a fatura da saúde, da escola e da segurança pública adicional. Em segundo, a casta de ONGs que vive de gerenciar a miséria importada, com seus diretores executivos ganhando salários de banqueiro para escrever relatórios que ninguém lê. Em terceiro, o partido político que entende migração como importação de eleitorado dependente, fenômeno que qualquer aluno minimamente atento ao cenário europeu identifica sem dificuldade. O migrante de carne e osso, esse pobre coitado, é só o personagem usado para emocionar a plateia enquanto o cofre é assaltado nos bastidores.

Existe migração que enriquece a nação receptora, e isso precisa ser dito sem rodeios para não cair no caricato. O sujeito que chega com habilidade, capital próprio, vontade de assimilar o idioma, respeito pelas instituições locais e disposição para entrar na cadeia produtiva sem mamar do orçamento alheio é benção em qualquer geografia. Foi assim que se ergueram nações inteiras, do imigrante italiano que plantou café no interior paulista ao alemão que montou indústria no sul. Esses não vieram pedir cota, vieram pedir terra para trabalhar. A diferença entre aquela migração e a contemporânea não é racial, étnica ou religiosa como tentam fazer crer os professores de departamento de humanas. A diferença é institucional: antes não havia welfare state para subsidiar quem não produzia, então quem vinha tinha que produzir ou voltar.

O paradoxo cruel da política aberta é que ela destrói exatamente o tipo de civilização que torna o destino atraente. As pessoas não fogem do Haiti para chegar em outro Haiti, fogem para chegar em algo que funciona. E o que faz funcionar é precisamente o arranjo institucional, cultural e moral que a migração descontrolada, somada à exigência de que o anfitrião se autoflagele em nome da diversidade, consegue erodir em duas gerações. Quem ama a casa não a transforma em hospedaria sem regra, sem chave e sem critério, sob pena de em pouco tempo não ter mais casa nenhuma para hospedar quem quer que seja. A bondade que ignora consequência não é virtude, é vaidade fantasiada de moral.

O debate honesto, portanto, não está entre o coração mole do globalista e a pancada xenofóbica do caricato. Está entre quem entende que toda comunidade política precisa de critério de pertencimento, regra de entrada e exigência de assimilação, e quem prefere o conforto da virtude declarada à responsabilidade do governo concreto. Fronteira é como contrato: existe para que a cooperação seja possível, não para impedi-la. Quem propõe aboli-la sem desmontar antes a máquina redistributiva que ela protege não está defendendo liberdade, está propondo que o vizinho pague a festa que ele decidiu organizar na sala dos outros.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.