A Mitsubishi Chemical Group e a Accenture acabam de formalizar uma joint venture batizada com aquele nome solene de sempre, prometendo "revolucionar operações industriais por meio de inteligência artificial". Tradução para gente que paga conta de luz: a química japonesa contratou a consultoria global para automatizar o que ainda restava de processo humano dentro das suas plantas, e ambas montaram uma empresa separada para vender o mesmo serviço a terceiros. É a velha jogada de transformar o departamento interno em centro de lucro, embrulhada no papel de presente do momento, que é a sigla IA.

Olha, ninguém precisa ser engenheiro para entender o arranjo. A Mitsubishi tem o dado operacional de décadas, sabe onde cada válvula range e cada turno escorrega. A Accenture tem o exército de consultor de terno que sabe vender qualquer coisa para qualquer board do planeta. Juntam o ativo de um com a máquina de venda do outro, criam uma entidade nova que não responde diretamente nem a um nem a outro acionista, e saem oferecendo "transformação digital" para a indústria pesada do mundo inteiro. O lucro fica concentrado, o risco fica difuso, e o ganho de produtividade vira dividendo antes mesmo de virar inovação.

O que se vê é a manchete bonita, o discurso de sustentabilidade, os gráficos de eficiência energética que a sala de imprensa vai bombardear nas próximas semanas. O que não se vê é o operador de planta que vai descobrir, no ano que vem, que sua função "foi otimizada" por um modelo treinado com os dados que ele mesmo gerou ao longo de vinte anos de carreira. É a piada mais antiga do capitalismo de compadrio tecnológico: o trabalhador alimenta o sistema que vai aposentá-lo, e ainda assina termo de confidencialidade no processo. Quando o gerente disser que "a IA assumiu", o que ele está dizendo é que o departamento jurídico encontrou jeito de demitir sem pagar verba de inovação.

Há também o detalhe geopolítico que a coluna econômica de jornal grande raramente tem coragem de cutucar. A Mitsubishi não é uma empresa qualquer, é parte do tecido industrial que o Estado japonês trata como ativo estratégico desde o pós-guerra. A Accenture, por sua vez, é a maior intermediária de transformação tecnológica do hemisfério ocidental, com contratos profundos em governos dos dois lados do Atlântico. Quando essas duas estruturas se fundem em uma joint venture focada em "operações industriais com IA", o que está nascendo não é uma empresa de software, é uma camada de governança privada sobre a infraestrutura produtiva global. Quem decide o algoritmo que decide o turno, decide o país.

O brasileiro lê isso e acha distante, coisa de Tóquio e Dublin, problema de gente rica. Engano. A petroquímica nacional, a mineração, a indústria de papel e celulose, todas elas vão receber o mesmo pitch nos próximos doze meses, com o mesmo PowerPoint traduzido, oferecendo o mesmo pacote de "eficiência operacional baseada em IA". E como o nosso empresariado historicamente prefere comprar pronto a desenvolver dentro de casa, vamos terceirizar a inteligência das nossas próprias plantas para uma joint venture estrangeira que vai cobrar royalty mensal pelo privilégio de operar a fábrica que nós construímos. Chama-se isso de modernização. O nome correto seria arrendamento cognitivo.

No fim das contas, a história sempre se repete com fantasia nova. Primeiro foi o vapor que ia libertar o homem do trabalho braçal, depois foi a eletricidade, depois a informática, e agora é a IA. Em cada onda, prometeram menos jornada, mais salário, mais tempo livre. Em cada onda, o que entregaram foi mais concentração de capital, menos autonomia do trabalhador e mais dependência tecnológica de quem controla a infraestrutura. A diferença desta vez é que a máquina não substitui só o músculo, substitui o julgamento. E quando o julgamento vira commodity vendida por consultoria, o que sobra do homem é o consumidor, sentado, esperando o algoritmo decidir o que ele vai querer amanhã.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.