A notícia chegou embrulhada em papel celofane. A Mizuho, um dos grandes bancos japoneses, elevou o preço-alvo das ações da Mobileye para nove dólares porque a receita do trimestre veio acima do consenso. Aplausos no pregão, relatórios otimistas, analistas felizes. Quer dizer, a empresa israelense de sistemas de condução autônoma está provando que o futuro chegou e o mercado está premiando quem chegou primeiro. É essa a narrativa oficial. E é essa a narrativa que merece ser desmontada com paciência, porque por baixo do vidro blindado existe um motor movido a dinheiro público, crédito barato e captura regulatória.

Comece pelo óbvio que ninguém quer ver. A Mobileye não vende chip de celular nem software de planilha. Ela vende tecnologia para carros, e o mercado automotivo global dos últimos quatro anos foi o maior beneficiário de subsídio industrial do mundo ocidental desde a Segunda Guerra. Estados Unidos despejaram centenas de bilhões no setor via pacote de infraestrutura e créditos fiscais para veículos elétricos. A União Europeia fez o mesmo com sua política verde. A China subsidia sua indústria com a mesma subtileza de um trator em biblioteca. Quando uma fornecedora de tecnologia automotiva bate expectativa de receita nesse ambiente, o que ela está provando exatamente? Que é boa, ou que o governo certo gastou bem?

Siga o dinheiro e a imagem fica mais clara. A receita da Mobileye depende de montadoras que dependem de consumidor que dependem de crédito a juros que foram artificialmente manipulados por bancos centrais durante uma década inteira. O financiamento de carro nos Estados Unidos hoje roda em prazos que seriam considerados delinquência fiscal em qualquer geração anterior, com parcelas que comprometem orçamento familiar por oito anos para um ativo que perde metade do valor em três. Isso não é mercado livre funcionando, é engenharia financeira sustentando demanda que o preço real do dinheiro já teria liquidado. E a Mobileye colhe os frutos desse arranjo como quem colhe laranja de pomar alheio.

Tem mais camada. O produto que a empresa oferece, condução assistida e autônoma, é um dos setores mais politicamente sensíveis da tecnologia mundial, regulado por órgãos federais que decidem quem pode vender, onde, com quais requisitos e seguindo qual padrão de segurança. Toda vez que um regulador aumenta exigência técnica, ele empurra do mercado o pequeno concorrente que não tem exército de advogado e lobbista, e entrega quota de mercado para o incumbente que já está na mesa de negociação. A Mobileye está na mesa. Os concorrentes emergentes frequentemente não estão. Isso se chama captura regulatória, e é o padrão da indústria moderna, não exceção.

E o contribuinte, onde entra nessa história? Entra em todos os cantos. Entra financiando a pesquisa militar que virou tecnologia civil, entra subsidiando a montadora que compra o produto, entra pagando o crédito barato do consumidor que compra o carro, entra sustentando o regulador que protege o oligopólio, entra cobrindo o prejuízo quando a bolha estourar e alguém tiver que ser resgatado. O que se vê é a ação subindo e o analista sorrindo. O que não se vê é a enxurrada de dinheiro confiscado, desviado e realocado que construiu o cenário em que essa subida se torna possível. A diferença entre o capitalismo autêntico e o capitalismo de compadrio é que o primeiro enriquece quem serve o cliente e o segundo enriquece quem serve o regulador.

Nada disso significa que a Mobileye seja uma empresa ruim ou que sua tecnologia não tenha mérito. Significa apenas que celebrar relatório trimestral como evidência de mercado saudável é confundir termômetro com temperatura. O preço-alvo de nove dólares pode se confirmar, o próximo trimestre pode vir ainda melhor, e mesmo assim a pergunta incômoda continua de pé: quanto dessa valorização reflete engenhosidade privada e quanto reflete o maior programa de subsídio industrial da história recente? A resposta honesta envergonharia o analista e deprimiria o investidor. Por isso ninguém pergunta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.