O analista do banco japonês Mizuho sai com uma recomendação de compra para as ações da Stanley Black & Decker, a centenária fabricante de ferramentas, e o mercado lê a notícia como sinal de confiança. Olha, confiança é uma palavra curiosa nesse contexto. O que o relatório está dizendo nas entrelinhas, sem dizer, é que a empresa vai conseguir repassar as tarifas de importação para o consumidor final e preservar margem. Traduzindo do economês corporativo para o português de gente: a furadeira vai custar mais caro, o americano médio vai pagar, e o acionista vai brindar. O banqueiro chama isso de tese de investimento. O pedreiro chama isso de aumento de preço.

Quer dizer, é o velho truque da janela quebrada vestido de terno novo. Tarifam-se as importações sob o pretexto heroico de "proteger a indústria americana", e a bancada política aplaude o gesto patriótico diante das câmeras. O que ninguém filma é a fileira invisível de pequenas oficinas, marceneiros autônomos, eletricistas de bairro e donos de obra que viram o custo do ofício subir da noite para o dia, sem que ninguém tenha aumentado o salário deles na mesma proporção. O emprego preservado numa fábrica em Connecticut é visível e rende foto com o presidente. Os milhares de empregos esmagados nas pontas da cadeia, nos bolsos dos consumidores que agora compram menos porque tudo custa mais, esses ninguém fotografa.

E siga o dinheiro, porque ele nunca mente. A tarifa é cobrada no porto, vira receita do governo federal, e o custo vai direto para o preço de prateleira. O acionista institucional, aquele mesmo que o banco de investimento está aconselhando agora a comprar, embolsa a margem preservada porque a empresa nacional foi artificialmente blindada da concorrência asiática. O executivo recebe bônus por performance num jogo cujas regras foram alteradas em seu favor por decreto. O consumidor que reclama do preço da ferramenta no balcão não tem ideia de que está financiando, via imposto embutido, o almoço do CFO da companhia e o upgrade de classe executiva do gestor de fundo que detém as ações. Isso não é capitalismo. Isso é compadrio com papel timbrado.

O argumento de que tarifa protege a indústria nacional é aquele tipo de mentira que só sobrevive porque poucos se dão ao trabalho de acompanhar o silogismo até o fim. Se encarecer a importação tornasse um país rico, a Coreia do Norte seria a Suíça. Se proteger produtor local do concorrente estrangeiro gerasse prosperidade, o mercantilismo do século dezoito teria vencido a Revolução Industrial em vez de ser derrotado por ela. A prosperidade sempre veio da troca livre, da especialização, da concorrência que disciplina o produtor e premia o consumidor. Protecionismo é anestesia cara para empresa preguiçosa, não remédio para economia doente.

Há ainda a ironia fina de ver o mercado financeiro aplaudir a medida. O mesmo sujeito que escreve editorial defendendo livre mercado na segunda-feira está recomendando comprar a empresa que lucra com a abolição do livre mercado na terça. A coerência intelectual sucumbe quando o dividendo aumenta. E aqui vale a cerca velha do bom senso: antes de erguer uma barreira alfandegária, alguém parou para entender por que ela foi derrubada no passado? Provavelmente não. Porque quem estuda história econômica sabe que muralha tarifária é a coisa mais cara que uma nação já inventou para se sentir segura enquanto fica mais pobre.

Resta a pergunta incômoda que ninguém faz no pregão: se a empresa é boa, por que precisa de tarifa para prosperar? Ferramenta que se vende sozinha não precisa de escudo governamental. Ferramenta que precisa de escudo governamental não é um bom investimento, é um esquema político com CNPJ. O analista pode reiterar a recomendação de compra quantas vezes quiser. A conta, no fim, sempre chega ao sujeito que só queria consertar a torneira de casa no domingo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.