O número saiu e fez barulho de trator no asfalto. A moagem de cana no centro-sul mais que dobrou na segunda quinzena de abril em relação à primeira, e a produção de açúcar e etanol acompanhou o salto. Quer dizer, enquanto o noticiário econômico se entretém com a próxima reunião do Copom e com o teatro fiscal de Brasília, é no interior de São Paulo, de Goiás, do Mato Grosso do Sul que a economia real está sendo feita, sem coletiva de imprensa, sem ministro de pasta inflada, sem decreto salvador. Plantaram, colheram, moeram. Fim da história. Ou começo dela, dependendo do ângulo.
Olha, o detalhe que ninguém quer enxergar é que esse salto não veio de programa federal, não veio de subsídio anunciado em palanque, não veio de fundo verde do BNDES com sigla de quatro letras. Veio de gente que arriscou capital próprio, contratou mão de obra, comprou maquinário caro com juros escorchantes e apostou que o preço internacional do açúcar ainda compensaria o assalto tributário que cada saca leva nas costas. O produtor não esperou diretriz, não esperou política industrial, não esperou o burocrata decidir o que é estratégico. Ele decidiu sozinho, porque é dono do prejuízo quando dá errado e do lucro quando dá certo. Coisa rara num país onde quase todo mundo quer privatizar lucro e socializar perda.
Me diz uma coisa: por que sempre que a safra dispara, surge alguém em Brasília querendo regular, taxar, "ordenar" o mercado de etanol? A resposta é simples e segue o cheiro do dinheiro. Etanol em alta significa concorrência incômoda para a gasolina, e gasolina é estatal disfarçada, é fonte de receita federal, é currículo de presidente de companhia indicada politicamente. Quando o canavial produz demais, o lobby do combustível fóssil estatal corre para os gabinetes pedindo "equilíbrio competitivo", expressão elegante para "mandem o produtor de cana parar de me incomodar". O consumidor, que poderia pagar menos no posto, é o último a saber e o primeiro a pagar.
O mais cômico, ou trágico, é que essa mesma turma que sabota o etanol nos bastidores aparece em conferência climática internacional vestindo terno e falando de transição energética, biocombustíveis, descarbonização. O Brasil já tem a matriz energética mais limpa do planeta entre as grandes economias, e tem porque empresário rural plantou cana décadas atrás quando ninguém falava em ESG, quando ninguém usava a sigla pomposa do momento. Construíram um sistema que o mundo agora copia, e a recompensa é tributação crescente, judicialização ambiental seletiva e o eterno risco de algum gênio do planejamento central decidir tabelar o preço da garapa em nome do interesse público.
Existe uma lição antiga aqui, daquelas que toda geração reaprende apanhando. Sempre que o governo deixa o produtor em paz, a produção explode. Sempre que decide ajudar, a produção quebra. Não é coincidência, é lógica elementar de quem entende que mercado é informação descentralizada e que nenhum comitê em Brasília consegue saber mais sobre o canavial do que o sujeito que dorme com a chave do trator embaixo do travesseiro. O dado da Unica não é só estatística agrícola, é prova de conceito. A liberdade econômica entrega, o intervencionismo atrapalha, e o resto é conversa para encher relatório do FMI.
Festejem o número, mas não baixem a guarda. Toda safra recorde no Brasil atrai, como urubu atrai morte, três coisas inevitáveis: um projeto de lei novo, uma autarquia revigorada e um imposto criativo. A questão não é se virá, é quando. E quando vier, lembrem-se de quem moeu a cana, e de quem só apareceu para cortar o pedaço maior do bolo que não ajudou a assar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.