Seis meses antes do papel da Mirion derreter 38%, um modelo quantitativo da InvestingPro já sinalizava o despenhadeiro. Não foi profecia, não foi sorte, foi leitura fria de fundamentos que qualquer analista honesto enxergaria se não estivesse ocupado vendendo relatório de banco com selo dourado e linguagem hermética para justificar o preço. O dado estava na mesa. O problema é que ninguém na mesa queria ver, porque ver custava admitir que o consenso da casa estava errado, e admitir erro, no mercado financeiro, custa bônus.

Olha, isso aqui é a versão moderna de uma história velhíssima. Sempre que alguém aponta o iceberg, o capitão manda servir mais champanhe e o comissário recomenda dançar. O sujeito que avisa é chamado de pessimista, de alarmista, de incapaz de entender a nova era. Aí o navio afunda, e os mesmos que riam aparecem nos jornais explicando, com ar grave, que ninguém poderia ter previsto. Ninguém? O modelo previu. O que faltou não foi informação, faltou disposição de contrariar o rebanho.

E aqui mora a beleza cruel do mercado livre, quando deixam o mercado ser mercado. Preço é informação condensada, é o juízo agregado de milhões de decisões individuais batendo umas nas outras até produzir um número que carrega mais sabedoria do que qualquer comitê de sábios reunidos numa sala fechada. Quando o algoritmo lê esse sinal sem o filtro do interesse pessoal do gestor que precisa justificar a posição comprada, ele simplesmente fala a verdade. A verdade é incômoda, por isso é ignorada, por isso rende 38% de queda para quem insistiu em não ouvir.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Quem perdeu nessa queda? O investidor pequeno, o fundo de pensão que comprou a recomendação de manada, o sujeito que confiou no relatório bonitinho do banco grande. Quem ganhou? Os de sempre, os que tinham acesso ao sinal antes, os que vendem o ativo justamente quando o varejo está comprando. O mercado financeiro institucional adora se vender como meritocracia técnica, mas opera, em boa parte do tempo, como cartório medieval, cobrando pedágio para repetir consenso e punindo quem aponta o óbvio.

Quer dizer, o ponto não é canonizar algoritmo nenhum, porque modelo erra também, modelo é tão bom quanto a premissa de quem o construiu. O ponto é que existe uma assimetria estrutural entre o profissional que precisa agradar o cliente, o regulador e o chefe, e a máquina que só precisa cuspir um número. A máquina não tem carreira para proteger, não tem convite para almoço corporativo para perder, não precisa aparecer simpática no painel da CNBC. Ela faz o que o analista deveria fazer e não faz, porque fazer custa caro em capital social.

Me diz uma coisa, quantos relatórios premium dos grandes bancos previram essa queda com a mesma antecedência? Provavelmente zero. E ainda assim, esses bancos vão continuar cobrando taxa de administração gorda, e os clientes vão continuar pagando, porque o ser humano prefere errar com a multidão a acertar sozinho. É o instinto do rebanho disfarçado de prudência. A história econômica é uma coleção infinita desse mesmo enredo, do tulipa holandesa ao subprime americano, e o final é sempre o mesmo, com o cidadão comum pagando a conta de uma festa para a qual ele sequer foi convidado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.