O primeiro-ministro indiano entregou um pacotinho de toffees de caramelo à colega italiana num gesto diplomático qualquer, daqueles que rendem foto sorridente e nada mais. No dia seguinte, as ações de uma empresinha de software listada em Mumbai, que jamais fabricou um doce sequer na vida, dispararam como se tivessem descoberto petróleo no estoque. O motivo? O nome da companhia lembrava, de longe, com boa vontade e olho semicerrado, a palavra que algum operador associou ao tal caramelo. Pronto. Bastou isso para o capital correr atrás de um fantasma.

Olha, se você ainda acredita naquela ladainha repetida em cada faculdade de economia do mundo, a de que os preços refletem o conhecimento agregado de milhões de mentes calculando friamente fluxos de caixa descontados, esta semana é o lembrete de que o rei anda nu há muito tempo. O preço, naquele instante, não refletiu lucro futuro, não refletiu vantagem competitiva, não refletiu absolutamente nada sobre a empresa em questão. Refletiu o impulso elétrico de um sujeito que ouviu uma palavra parecida com outra e apertou o botão de comprar. Quer dizer, o mercado processa informação, sim, só que parte considerável da informação processada é lixo, fofoca e equívoco semântico.

E aqui chegamos ao ponto que ninguém quer admitir. Se uma confusão de nomes consegue mover milhões em minutos, imagine o que faz uma decisão de banco central sobre juros, uma fala enviesada de ministro da Fazenda, um boato plantado por fundo interessado em comprar barato. O mercado de capitais moderno virou parente próximo do cassino, e a culpa não é do investidor pessoa física que apertou o botão errado. A culpa é de décadas de dinheiro fácil, juros artificialmente esmagados e liquidez jorrando em torrente, criando uma geração de operadores que aprendeu a surfar narrativa porque o fundamento já não paga mais nada. Quando o dinheiro vale pouco, qualquer pretexto serve para empurrá-lo adiante.

Repare na ironia que ninguém quer ver. Os mesmos economistas de balcão que riem do indiano comprando ação errada por causa de um doce são os que defendem com cara séria que a autoridade monetária do país deles vai conseguir calibrar a taxa básica de juros com precisão cirúrgica, como se houvesse no mundo um burocrata capaz de conhecer simultaneamente a preferência temporal de duzentos milhões de pessoas. Se o mercado erra ao ler uma palavra, como é que o comitê de política monetária acerta ao ler uma economia inteira? A resposta é simples e ninguém gosta dela. Não acerta. Apenas tem o monopólio da impressora e finge.

Há ainda um detalhe delicioso nessa história, daqueles que merecem ser saboreados com calma. A empresa que subiu não vendeu nada de novo, não inventou nada de novo, não contratou ninguém de novo. Ficou exatamente igual ao que era na véspera, só que agora vale mais aos olhos do mercado por motivo nenhum identificável no balanço. É a prova viva de que valor, naquele universo, não nasce da produção, nasce da percepção. E percepção, meu caro, é a coisa mais manipulável que existe nas mãos certas. Pergunte a qualquer assessor de imprensa de empresa listada se ele acredita em mercado eficiente. Vai sorrir e mudar de assunto.

Fica a lição que custa caro quando aprendida na própria carteira. O mercado livre continua sendo o melhor sistema de alocação de recursos que a humanidade já produziu, isso não está em jogo. O que está em jogo é a fantasia ingênua de que ele seja onisciente. Não é. Ele é melhor que o planejador central porque agrega informação dispersa de forma descentralizada, mas continua sujeito a manias, pânicos e a confusões etimológicas envolvendo balas de caramelo. A diferença é que, no mercado, o erro pune o errado e a coisa se corrige. Quando o erro é do banco central, a conta vem na inflação, no desemprego e na ruína do poupador honesto, e o errado vira professor titular em universidade prestigiada.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.