O ringgit malaio sobe meio ponto, a rúpia indonésia para de despencar, o won coreano dá uma fungada de alívio, e os analistas de banco saem correndo para escrever que o pior já passou. Passou nada. O que passou foi uma terça-feira em que o índice do dólar recuou marginalmente porque algum dado fraco de emprego americano sugeriu que o Federal Reserve pode, talvez, quem sabe, eventualmente, parar de torturar o resto do planeta com juros altos. É nisso que se resume a soberania monetária de meio bilhão de asiáticos: rezar para que um comitê de treze pessoas em Washington tenha clemência.
Olha, a coreografia é sempre a mesma e ninguém se cansa de dançar. O dólar sobe porque o Tesouro americano precisa financiar uma dívida que já passou dos trinta e seis trilhões, o capital foge dos emergentes em pânico, os bancos centrais de Jacarta, Manila e Bangcoc queimam reservas tentando segurar suas moedas, e quando finalmente o dólar recua dois pontinhos, esses mesmos bancos centrais comemoram como se tivessem vencido alguma coisa. Venceram o quê? Continuam reféns. Continuam sem âncora própria. Continuam dependentes da generosidade de um sistema monetário que foi desenhado em 1971 para favorecer exatamente quem o controla.
E aí entra o Golfo, claro, porque nenhuma análise de moeda emergente está completa sem o ingrediente geopolítico que ninguém sabe precificar. Tensões entre israelenses, iranianos, hutis, americanos, sauditas, e o barril de petróleo oscila dez por cento numa semana, e com ele oscila a inflação importada de toda a Ásia que depende daquela energia para fazer girar suas fábricas. Quem decide quanto custa o combustível que move a economia do Vietnã não é o vietnamita, é o cálculo geopolítico de potências que estão a dez mil quilômetros de distância. Chamam isso de globalização integrada. Eu chamo de feudalismo monetário com Wi-Fi.
Quer dizer, vamos ao que importa de verdade, que é seguir o dinheiro. Cada vez que essas moedas asiáticas tremem, quem ganha? Os fundos de hedge americanos que apostaram contra elas, os bancos de investimento que cobram comissão nas duas pontas do trade, e os exportadores chineses que de repente ficam mais competitivos quando o yuan se mantém artificialmente desvalorizado ao lado de vizinhos em colapso. Quem perde? O trabalhador indonésio que viu seu salário em rúpias virar pó comprado em dólar, o pequeno empresário tailandês que importa insumo, a dona de casa filipina que paga mais caro pelo arroz importado. A volatilidade nunca é democrática. Ela enriquece quem está no andar de cima da estrutura e empobrece quem está embaixo, e essa é a única lei econômica que nunca falha.
O que ninguém quer dizer é que essa instabilidade crônica das moedas emergentes não é defeito do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado. Um mundo em que o dinheiro é decretado por monopólios estatais, em que as taxas de juros são fixadas por comitês iluminados, em que a oferta monetária expande e contrai conforme a conveniência política de quem comanda a impressora, esse mundo não pode produzir outra coisa senão o circo permanente que estamos vendo. A culpa não é da Ásia por ser frágil. A culpa é de um arranjo monetário internacional construído sobre a premissa de que alguém, em algum lugar, sabe qual deveria ser o preço correto do dinheiro. Ninguém sabe. Nunca soube. E é por isso que toda calmaria dura até o próximo telegrama de Washington ou o próximo míssil no Estreito de Ormuz.
A estabilização de hoje é o presságio da crise de amanhã, porque crédito artificial e moeda fiduciária não geram ordem, geram apenas o intervalo entre dois espasmos. Os asiáticos aprenderão isso de novo, do jeito mais caro, como sempre aprenderam. Enquanto isso, brindam o alívio momentâneo achando que ganharam algo, quando na verdade só receberam permissão temporária para continuar respirando.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.