O iene fechou a semana no maior patamar em sete meses e levou de arrasto o won coreano, o dólar de Cingapura, o baht tailandês e até o ringgit malaio, aquele que ninguém lembra que existe até o dia em que ele sobe. A imprensa financeira, sempre pronta a embrulhar o óbvio em papel de presente, atribui o movimento a "expectativas de corte de juros nos Estados Unidos" e "reposicionamento de carteiras". Tradução para o português dos mortais: o mercado está com medo do que vem por aí no dólar, e está procurando qualquer coisa que pareça menos apodrecida. Quando o iene, moeda de um país que carrega dívida pública superior a duzentos e sessenta por cento do PIB, começa a parecer refúgio, o problema não está em Tóquio. Está em Washington.
Vamos seguir o dinheiro, que é o esporte favorito de quem não se contenta com manchete. O Federal Reserve passou a última década e meia imprimindo dólar como quem imprime panfleto de campanha, e agora se prepara para cortar juros novamente porque a economia americana, apesar do discurso oficial de robustez, dá sinais claros de fadiga. Cada corte de juro é um convite para o capital sair procurando rendimento em outro lugar. Cada dólar que sai do Tesouro americano vira demanda por outra moeda, e o iene, historicamente subvalorizado e agora com o Banco do Japão finalmente admitindo que não pode manter juro negativo para sempre, virou o destino natural desse êxodo. O que se vê é o iene subindo. O que não se vê é o dólar perdendo terreno como reserva de valor global, silenciosamente, sem manchete, sem chamada em rede nacional.
Existe uma ilusão confortável, alimentada por décadas de propaganda financeira, de que o dólar é forte porque a economia americana é forte. Isso já foi verdade em algum momento do século passado. Hoje, o dólar é forte porque não existe alternativa organizada. É a moeda menos suja do lavatório, para usar a expressão que os operadores de mesa sussurram entre si quando o microfone está desligado. E quando o iene, o franco suíço, o ouro e até o bitcoin começam a se movimentar em uníssono contra o dólar, o mercado está dizendo em código que a paciência com a impressora americana está acabando. Não é conspiração. É aritmética.
O caso brasileiro, aliás, merece um parágrafo à parte, porque nossa moeda continua patinando enquanto asiáticos se valorizam. Por quê? Porque o problema do real não é externo, é doméstico. Enquanto o dólar enfraquece contra tudo que respira, o real consegue a proeza de andar de lado, porque nosso governo persiste em gastar como se o dinheiro nascesse em árvore no Planalto e o Banco Central brinca de mocinho ora subindo, ora sinalizando corte, sem coerência estratégica alguma. O câmbio não é vítima do mundo. É vítima da irresponsabilidade fiscal que nenhum ministro da Fazenda dos últimos anos teve coragem de encarar de frente.
Há uma lição incômoda no movimento das moedas asiáticas para quem quer ver. Países que exportam mais do que importam, que poupam mais do que consomem, que produzem antes de distribuir, esses conseguem que sua moeda tenha respiração própria quando o dólar estrebucha. Países que fazem o contrário, que financiam consumo com dívida, que distribuem sem produzir, que tratam a poupança nacional como problema a ser combatido, esses ficam reféns da política monetária alheia. É brutal, é injusto na aparência, mas é apenas a realidade cobrando a fatura de escolhas feitas décadas atrás. A Ásia poupou. O Ocidente imprimiu. E agora o mundo escolhe onde estacionar seu dinheiro.
O iene em máxima de sete meses não é notícia de finanças. É diagnóstico civilizacional. É o mercado dizendo, na única linguagem que os políticos ocidentais ainda não conseguiram censurar, que a festa da impressora está chegando ao fim e a ressaca vai ser inesquecível. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. Quem preferir continuar acreditando que o dólar é eterno porque sempre foi, prepare o bolso. O mundo está votando com o teclado dos operadores, e o resultado da eleição está escrito em cada tick do gráfico.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.