A Mitsui O.S.K. Lines, uma das três maiores armadoras do mundo, acaba de comunicar ao mercado que seu EBITDA do primeiro trimestre desabou 25% na comparação anual e, para azedar o café da manhã dos acionistas, ficou abaixo até daquelas estimativas conservadoras que os analistas de banco fabricam para nunca errarem feio. O lucro operacional encolheu, as receitas perderam tração e a ação reagiu como reage toda ação que decepciona em bolsa que ainda funciona como bolsa: caiu. Olha, quando o número vem pior do que a expectativa já pessimista, é porque a coisa por dentro está bem mais feia do que o release deixa transparecer.

É preciso entender o que aconteceu com o setor naval nos últimos cinco anos para sacar o tamanho da ressaca atual. Durante a pandemia, com cadeias logísticas estranguladas por decreto sanitário e governos despejando trilhões na veia do consumo, as tarifas de frete marítimo multiplicaram por dez, em alguns trechos por vinte. Armadora que mal conseguia cobrir custo virou máquina de imprimir dinheiro de um dia para o outro. MOL, Maersk, Hapag-Lloyd, todas nadaram em caixa que jamais teriam visto em condições normais. Só que aquilo não era prosperidade, era distorção. E distorção fabricada por intervenção monetária e sanitária sempre cobra a conta, mais cedo ou mais tarde, com juros.

A conta chegou. Com a normalização das cadeias, a queda do consumo americano financiado a crédito barato, e o excesso de capacidade que as próprias armadoras encomendaram nos estaleiros achando que a festa duraria para sempre, as tarifas voltaram para a terra. Em alguns segmentos, voltaram para baixo da terra. E aí aparece o detalhe que o investidor desavisado não vê: boa parte da rentabilidade recente do setor dependia de rotas redesenhadas pela crise do Mar Vermelho, pelos houthis, pelo desvio do Cabo da Boa Esperança, ou seja, dependia de geopolítica em chamas. Quando a chama baixa um pouquinho, o resultado some.

Me diz uma coisa, em que outro setor uma empresa comemora guerra em rota comercial como se fosse vento favorável? No setor que se acostumou a depender de externalidades violentas para fechar o balanço. MOL, como suas pares, foi pega no contrapé porque construiu projeções em cima de premissas que nenhum executivo sóbrio chamaria de sustentáveis. Encomendou navios novos no pico do ciclo, contratou tripulação no pico do ciclo, distribuiu dividendos generosos no pico do ciclo, e agora descobre que o ciclo era ciclo, não patamar. A surpresa só existe para quem confunde sorte com competência.

Há um ensinamento mais profundo nesse balanço pífio, e ele vale para muito além do shipping. Toda atividade econômica que floresce sob condições artificiais, seja dinheiro impresso, juro reprimido, regulação que afasta concorrente, subsídio cruzado ou rota distorcida por sanção, vai um dia encarar a verdade do cálculo econômico real. E o cálculo real é cruel: ele não perdoa empresa que confundiu bonança política com vantagem competitiva. O capitalismo de verdade, aquele que opera sem muleta estatal nem favor geopolítico, tritura quem não entrega valor genuíno ao cliente que paga com dinheiro próprio.

O que se vê é a queda de 25% no EBITDA da MOL. O que não se vê é a fila de armadoras menores que vão quebrar antes, os empregos que vão evaporar nos estaleiros sul-coreanos e chineses que produziam para essa demanda fantasma, os portos que investiram bilhões em expansão acreditando no novo normal, e os fundos de pensão japoneses que carregam essas ações achando que estavam comprando dividendo perpétuo. A festa do crédito fácil sempre acaba com gente lavando louça. E desta vez, quem está lavando é a tripulação.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.