Os grandes grupos industriais dos Estados Unidos, com as montadoras na frente, acabam de soltar um alerta solene sobre a escassez iminente de chips de memória, aquelas peças minúsculas que fazem um carro moderno funcionar e que, sem elas, a linha de produção vira escultura cara. O comunicado vem com o tom habitual de quem descobriu o problema ontem, embora qualquer engenheiro de cadeia de suprimentos viesse gritando isso há pelo menos dois anos. A pergunta interessante não é se vai faltar chip. Vai faltar. A pergunta é como um país que torrou centenas de bilhões em pacotes de incentivo à indústria de semicondutores conseguiu produzir, como resultado, exatamente o cenário que dizia estar combatendo.

Olha, quando o governo decide que vai planejar um setor inteiro, distribuindo dinheiro carimbado para fabricantes escolhidos a dedo, com critérios escritos por lobistas em escritórios climatizados, o resultado nunca, em nenhum momento da história econômica, foi abundância. Foi sempre o oposto. O capital migra para onde o subsídio mora, não para onde o consumidor precisa. As fábricas anunciadas com fanfarra demoram o triplo do prometido, custam o quíntuplo do orçado e produzem metade do volume. Enquanto isso, o tipo específico de chip que a indústria automotiva consome, memória de geração anterior, margens apertadas, processo maduro, fica órfão, porque ninguém ganha bônus político inaugurando fábrica de coisa antiga.

E aqui entra o detalhe que a imprensa econômica finge não ver. Os mesmos grupos que agora pedem socorro ao governo são os que aplaudiram em pé cada centavo de dinheiro público despejado no setor. Eles ajudaram a redigir os critérios. Eles abocanharam os créditos fiscais. Eles colocaram seus ex-executivos nos comitês de distribuição. Quer dizer, montaram a armadilha, caíram dentro dela, e agora batem na porta do mesmo bombeiro que ateou o fogo pedindo um copo d'água. Siga o dinheiro e você verá que o circuito é fechado: o contribuinte financia o subsídio, o subsídio distorce o mercado, o mercado distorcido gera escassez, a escassez justifica novo pacote emergencial, e o contribuinte paga de novo. Bonito de ver, do ponto de vista de quem está no anel.

O que nenhum desses comunicados solenes vai dizer é que existe uma alternativa antiga, testada e quase esquecida, chamada deixar o preço fazer o trabalho dele. Se falta chip de memória, o preço sobe. Se o preço sobe, surgem fornecedores. Se surgem fornecedores, a escassez se resolve sozinha em meses, não em décadas. Mas isso exige uma coisa que o planejador detesta: humildade para reconhecer que nenhum comitê em Washington, por mais titulado que seja, possui o conhecimento disperso entre milhões de engenheiros, compradores e fornecedores espalhados pelo mundo. Essa pretensão de saber tudo, de cima, com planilha colorida, é o vício mais caro da política industrial moderna.

E vale lembrar a lição que ninguém quer lembrar: cada dólar gasto subsidiando uma fábrica nova de chip de ponta foi um dólar que não foi gasto em outra coisa. Talvez na expansão silenciosa de uma fábrica antiga que produzia justamente o tipo de memória que agora falta. Talvez em pesquisa privada que jamais aconteceu porque o capital seguiu o aroma do dinheiro federal. O que se vê é a fábrica inaugurada com tesoura de prata e foto oficial. O que não se vê são as dez fábricas modestas que não nasceram, os fornecedores médios que faliram porque não conseguiram competir com gigante subsidiado, e as inovações que ficaram na gaveta porque o talento foi todo absorvido pelo projeto financiado pelo Tesouro.

O resto é teatro. Vão fazer audiência no Congresso, vão chamar especialistas, vão produzir relatório com capa dura, e a conclusão será, adivinhe, mais um pacote de auxílio emergencial. A escassez de chip é só o sintoma. A doença é a fé religiosa de que burocrata escolhe melhor do que mercado. Quem confunde planejamento com produtividade vai descobrir, sempre tarde demais, que a economia não se deixa decretar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.