A notícia chega seca, quase burocrática: a Moody's elevou a perspectiva da África do Sul de estável para positiva, citando "melhora fiscal" e "compromisso com a consolidação das contas públicas". Traduzindo do economês para o português dos mortais, significa que um país que durante anos foi sinônimo de apagão, corrupção endêmica e estatais zumbis conseguiu fazer o mínimo que se espera de qualquer pai de família: gastar um pouco menos do que arrecada. E o mercado, faminto por qualquer sinal de juízo no hemisfério sul, aplaude de pé.

Olha, é interessante observar a régua. A África do Sul, esse país que tem a Eskom como monumento vivo ao fracasso do planejamento estatal, onde a energia falta com a pontualidade de um relógio suíço ao contrário, recebe um carinho da agência por sinalizar que talvez, quem sabe, eventualmente, vá apertar o cinto. E o Brasil? O Brasil segue com déficit primário recorde, arcabouço fiscal furado feito peneira, gastança eleitoreira disfarçada de programa social, e ainda tem a cara de pau de reclamar quando a mesma Moody's hesita em melhorar a nota verde-amarela. Quer dizer, o aluno que cola na prova fica indignado quando o professor não dá dez.

O que ninguém diz nos noticiários é a parte invisível dessa equação. Quando uma agência sobe a perspectiva, o custo de captação do governo cai, os juros pagos pela dívida pública diminuem, e sobra mais espaço fiscal para o que realmente importa, que é investimento privado, geração de emprego real, expansão produtiva. Quando ela desce, o oposto acontece: cada décimo a mais no risco-país é dinheiro tirado da escola do seu filho, do hospital do seu bairro, da fábrica que não vai abrir. Mas isso não vira manchete porque dói menos culpar "o mercado especulador" do que admitir que o problema é o ministro com a calculadora quebrada.

A África do Sul não fez milagre. Fez aritmética básica. Cortou subsídios cosméticos, segurou aumento de servidor, parou de criar ministério para acomodar aliado, encarou estatal deficitária. Coisas que qualquer dona de casa faz no dia 20 do mês quando vê que o salário não vai chegar até o 30. A diferença é que Pretória descobriu, ainda que tardiamente, que não existe almoço grátis, que toda nota fiscal emitida pelo Tesouro será paga em algum momento por alguém, geralmente o mais pobre via inflação, que é o imposto mais regressivo já inventado pelo homem.

E o brasileiro, esse povo gentil que aceita pagar a maior carga tributária da América Latina enquanto recebe serviços públicos de país africano, continua sendo educado para acreditar que o problema é falta de Estado. Sempre falta Estado. Falta programa, falta verba, falta agência reguladora, falta secretaria. Nunca falta a pergunta óbvia: e se faltasse menos Estado? E se cada real que sai do bolso do trabalhador para sustentar a máquina pública gigante e ineficiente voltasse para o circuito produtivo, para o investimento, para a poupança? Mas essa pergunta é proibida nas universidades, suprimida na imprensa, ridicularizada nas mesas de bar onde economistas de estatal explicam que gastar é crescer.

Pretória mostrou o caminho mais simples do mundo, o caminho que toda civilização que prosperou no planeta seguiu antes de prosperar: gaste menos, produza mais, respeite o contrato, proteja a propriedade, deixe o cidadão em paz. O resto é firula. E enquanto Brasília insiste em descobrir a roda quadrada chamando-a de "novo modelo de desenvolvimento", a África do Sul, com toda a sua tragédia histórica e seus apagões, está nos passando à esquerda. Sem ironia: literalmente nos passando à esquerda no ranking de credibilidade fiscal. Vergonha não tem preço, mas tem nota de risco.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.