A Moody's saiu publicamente para confirmar o Aa3 da Arábia Saudita no exato momento em que o reino fechou o Estreito de Ormuz, a passagem marítima por onde escoam cerca de vinte por cento do petróleo bruto consumido no mundo. Repita devagar. O país que acabou de cortar a jugular energética do planeta recebe o segundo melhor selo de qualidade de crédito existente no catálogo, enquanto economias que apenas gastam mal o próprio dinheiro são rebaixadas para grau especulativo. Me diz uma coisa, alguém ainda finge que essas notas medem risco real ou já podemos admitir em voz alta que medem alinhamento geopolítico?

A justificativa oficial fala em reservas robustas, em diversificação econômica via Visão 2030, em capacidade fiscal soberana. Tudo bonito no papel. O detalhe que ninguém na nota oficial menciona é que essas mesmas reservas estão denominadas em dólares americanos, custodiadas majoritariamente em bancos ocidentais e dependem da boa vontade do Tesouro dos Estados Unidos para continuarem líquidas. Quer dizer, o ativo que dá lastro ao rating é justamente o que o bloqueio do Ormuz coloca em xeque. É como elogiar a solidez de um banco enquanto o gerente toca fogo no cofre.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais cômica. Quem paga os honorários da Moody's? Os emissores avaliados, entre eles a própria Arábia Saudita, que rola bilhões de dólares em títulos soberanos exatamente porque carregam o selo de investment grade. Existe palavra técnica para isso, mas o brasileiro médio usa uma mais curta e mais honesta. O cliente pede a nota, paga pela nota, recebe a nota e depois a vende ao mercado como se fosse opinião independente. O assinante da Folha estranha quando o Brasil leva rebaixamento depois de um aumento de gasto, mas aceita normalmente que um reino petromonarca trave o comércio global e siga premiado.

O efeito invisível do truque é o mais devastador. Cada fundo de pensão europeu, cada gestora americana de renda fixa, cada tesouraria asiática que mantém títulos sauditas em carteira porque o regulamento interno exige Aa3 ou superior está agora financiando, sem saber, uma jogada geopolítica de chantagem energética. O aposentado holandês acordou hoje credor involuntário de quem decidiu que o petróleo do mundo passa pelo Ormuz quando o reino quiser, e não quando o mercado precisar. Isso não aparece na manchete porque a manchete diz apenas que a Moody's manteve o rating, e o leitor desavisado conclui que está tudo sob controle.

Há ainda a questão moral, que ninguém quer tocar. Uma agência de classificação de risco existe, em tese, para informar o investidor sobre a probabilidade de calote e sobre a estabilidade institucional do emissor. Estabilidade institucional num regime absolutista que decide unilateralmente fechar uma passagem internacional usada por dezenas de países? Probabilidade de calote num orçamento dependente de um barril de petróleo cujo preço a própria emissora acaba de manipular cortando a oferta? A nota não está avaliando risco. Está chancelando poder. E chancelar poder é o serviço mais antigo do mundo, só que antigamente os cortesãos faziam isso por uma sacola de moedas de ouro e hoje fazem por planilha em Excel com timbre em inglês.

O capítulo seguinte desse roteiro é previsível. Daqui a algumas semanas o petróleo dispara, a inflação importada bate nos países emergentes, o Banco Central brasileiro sobe a Selic, o governo culpa o mercado, a imprensa culpa o capitalismo, e ninguém volta ao começo da cadeia para perguntar por que diabos a agência de risco premiou exatamente quem provocou o estrago. Inflação que vem de fora é roubo que veio de dentro do arranjo, e o arranjo passa por um andar refrigerado em Nova York onde alguém continua dando nota Aa3 para quem trancou o oxigênio do comércio global. A próxima vez que alguém disser que rating é técnico, ria na cara da pessoa. É a única resposta intelectualmente honesta que sobrou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.