A Moolec Science anunciou esta semana a conclusão da fase de industrialização do GLASO1, um cártamo geneticamente modificado para expressar beta-lactoglobulina, a principal proteína do soro do leite bovino. Em português claro, plantaram uma semente que produz proteína de leite sem precisar de vaca, sem precisar de pasto, sem precisar de ordenha, sem precisar de frigorífico. A empresa é argentina, capital aberto na Nasdaq, e está mirando o mercado global de ingredientes proteicos que movimenta dezenas de bilhões de dólares por ano. Quer dizer, enquanto a vizinhança hispânica entrega ao mundo a próxima geração de proteína vegetal industrializada, o Brasil segue debatendo em comissão parlamentar se cártamo é planta ou conspiração.

O fato concreto é que estamos diante de um caso clássico de inovação que nasce no setor privado, com capital de risco, em jurisdição que permite pesquisa, e que vai gerar empregos, exportações e royalties para quem soube se mexer primeiro. A Argentina tem inflação de três dígitos, calote serial, peso que derrete na mão; e mesmo assim conseguiu manter um arcabouço regulatório de biotecnologia que aprova um transgênico em prazo civilizado. O Brasil, com toda sua estabilidade macroeconômica de fachada, leva anos para aprovar qualquer evento biotecnológico, exigindo estudos sobre estudos, audiências públicas, contestações de ONGs financiadas por fundações internacionais que, curiosamente, têm interesse direto em manter o agronegócio brasileiro travado.

Olha, é sempre o mesmo padrão. O que se vê é o discurso ambientalista, o princípio da precaução, a defesa do consumidor desinformado. O que não se vê é a fila de produtores que perdem competitividade, o pesquisador brasileiro que migra para Buenos Aires ou Rosário, o capital que escolhe outro país, e o consumidor pagando mais caro por proteína porque o cartel das vacas e dos lobistas conseguiu emperrar a alternativa por mais uma década. Cada ano de atraso regulatório custa bilhões em PIB que nunca apareceram, mas como esses bilhões não existem ainda, ninguém os chora. O emprego destruído pelo veto silencioso é invisível, e por isso os burocratas seguem dormindo bem.

Me diz uma coisa, qual é a lógica de um país que tem a maior fronteira agrícola do planeta, o melhor sol, o melhor solo, a melhor genética tropical, e mesmo assim assiste a Argentina, com um sétimo do nosso PIB agropecuário, levar a dianteira em proteína alternativa? A resposta está no mesmo lugar de sempre: numa Brasília que confunde regulação com soberania, princípio da precaução com princípio do imobilismo, e que adora carimbar processo enquanto a inovação acontece do outro lado do rio Uruguai. A burocracia não cria nada, mas decide quem pode criar; e quando decide, decide devagar, porque a pressa é inimiga da propina e da reeleição do colega.

Há ainda o detalhe do capital. A Moolec abriu capital nos Estados Unidos via SPAC, levantou recursos no mercado mais profundo do mundo, e está usando esse dinheiro para industrializar uma planta que cresce em pampa argentino. Note bem o desenho: ciência em laboratórios privados, capital em Wall Street, produção em campo argentino, mercado consumidor global. Em nenhum ponto dessa cadeia aparece um ministério, uma autarquia ou uma estatal explicando como fazer. Aparece, sim, uma agência reguladora local que disse sim em prazo razoável, e o resto foi a velha mão invisível organizando recursos, conhecimento e risco em algo que não existia antes. Toda vez que alguém repete que o mercado precisa do Estado para inovar, mostre este caso, e mande estudar.

O recado para o Brasil é desconfortável e por isso será ignorado. Não falta tecnologia, não falta cientista, não falta solo, não falta capital disposto. Falta tirar o pé do pescoço de quem produz. Enquanto a CTNBio se reúne para decidir se a próxima reunião decide alguma coisa, a fronteira da proteína vegetal está sendo desenhada em outro lugar, com outras regras, em outro idioma. Quando o GLASO1 chegar às prateleiras brasileiras importado da Argentina, com selo argentino e royalty argentino, alguém vai escrever um artigo indignado perguntando como fomos ultrapassados. A resposta estará escrita em todos os pareceres jurídicos que travaram, em todas as audiências que adiaram, em todas as canetas que não assinaram. País que pune quem produz não tem direito de reclamar de quem prosperou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.