Quando uma instituição como o Morgan Stanley publica relatório sobre cinco tendências da economia gig, o que está acontecendo, na verdade, é que o andar de cima do capitalismo financeiro precisa explicar aos seus clientes por que o velho mundo do emprego formal, com carteira assinada, jornada cronometrada e contracheque previsível, está implodindo diante dos olhos de todo mundo. O relatório fala em crescimento acelerado de plataformas, em mudança no perfil do trabalhador, em maior dependência de aplicativos para complemento de renda, em sofisticação tecnológica das ferramentas e em pressão regulatória crescente. Tradução honesta: as pessoas descobriram que podem ganhar a vida sem pedir licença a ninguém, e isso assusta tanto o burocrata de Brasília quanto o analista de Wall Street.

O nome bonito, "gig economy", esconde uma coisa antiga como o comércio: o sujeito que troca seu tempo, sua habilidade ou sua ferramenta diretamente por dinheiro de outro sujeito, sem chefe intermediário, sem holerite, sem departamento jurídico explicando por que ele não merece aumento. Isso se chamava antes alfaiate, sapateiro, taxista autônomo, professor particular, costureira, marceneiro. A diferença é que agora um aplicativo no celular faz a roda girar mais rápido, conecta o motorista ao passageiro, o entregador ao restaurante, o programador ao cliente do outro lado do planeta. A mão invisível ganhou Wi-Fi, e isso é uma das melhores notícias da década.

Só que é precisamente aí que mora o problema, do ponto de vista de quem vive da intermediação obrigatória. Cada motorista que ganha a vida pelo aplicativo é um sindicalista a menos pagando contribuição compulsória. Cada entregador autônomo é um contracheque a menos para o INSS embolsar e devolver, três décadas depois, em forma de aposentadoria que não compra um carrinho de feira. Cada freelancer que fatura em dólar pela internet é um sujeito que escapou do moedor de carne tributário que mói o assalariado brasileiro até sobrar osso. O incômodo das autoridades com a economia gig nunca foi com o trabalhador; foi sempre com a perda de controle sobre ele.

Por isso a quinta tendência apontada no relatório, a "pressão regulatória crescente", é a única que merece atenção verdadeira. Toda vez que um governo, em qualquer canto do mundo, descobre que existe um setor produtivo livre, sua reação instintiva não é deixá-lo florescer; é correr para enquadrá-lo, taxá-lo, sindicalizá-lo à força e fingir que está protegendo o trabalhador. Em Bruxelas chamam de "diretiva sobre trabalho em plataformas". Em Brasília chamam de "regulamentação do motorista de aplicativo". Em Sacramento chamam de AB5. O nome muda, o instinto é o mesmo: o que é livre precisa ser amarrado, porque homem livre é homem que não precisa do tutor, e tutor sem tutelado fica desempregado.

O detalhe sórdido, que o relatório educadamente não menciona, é que a regulação quase nunca nasce do trabalhador pedindo socorro. Ela nasce do empresário grande, do sindicato consolidado e do partido que vive de votos sindicais formando uma trincheira contra o concorrente novo, ágil e barato que veio comer seu almoço. A taxista da capital paulistana detesta o motorista de aplicativo pela mesma razão que o sapateiro do século XIX detestava a fábrica de calçados: o novo é mais eficiente, e o velho prefere lei a competição. O consumidor final, esse coitado que paga a corrida e que economiza vinte reais quando há concorrência, nunca é convidado para o debate sobre "proteção".

Resta a verdade desconfortável que nenhum banco de investimento vai escrever em relatório oficial: a economia gig não é uma anomalia tecnológica passageira; é o capitalismo voltando à sua forma natural, depois de um século de anestesia coletivista que convenceu o sujeito a chamar de "estabilidade" a sua jaula. O futuro do trabalho é exatamente o passado, com mais banda larga. Cada brasileiro que largou o crachá para dirigir, entregar, programar ou consultar por conta própria deu um chute na canela do Estado-babá. E é por isso que o Estado-babá vai gastar a próxima década tentando vesti-lo de novo no uniforme, jurando que é pelo bem dele.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.