O Morgan Stanley acordou esta semana com a revelação espantosa de que a Dell, fabricante de servidores que existe desde os anos oitenta, está ganhando muito dinheiro vendendo a infraestrutura física que faz a inteligência artificial girar. Preço-alvo elevado para 170 dólares, relatório recheado de adjetivos sobre "momento transformacional" e o coro habitual dos analistas repetindo em uníssono o que o mercado já precificou meses atrás. Quer dizer, descobriram que numa corrida do ouro quem vende pá fica rico. Notável perspicácia.

O ponto que ninguém no relatório toca, porque tocar é deselegante na seita dos otimistas profissionais, é a origem do dinheiro que está bombando as encomendas de servidores para treinar modelos cada vez mais caros. Não é poupança real acumulada por décadas de produtividade. É crédito barato emitido por bancos centrais que ainda não terminaram de digerir a ressaca da pandemia, somado a uma enxurrada de capital de risco que precisa colocar o dinheiro em algum lugar antes que a próxima rodada de juros estrague a festa. Cada servidor da Dell vendido para um hyperscaler está, no fundo, financiado por uma expectativa: a de que a inteligência artificial vai gerar receita suficiente para pagar a conta. Spoiler: a maior parte ainda não gera.

Olha, a história econômica é generosa com quem sabe enxergar padrões. No fim dos anos noventa, a Cisco era a Dell de hoje. Vendia roteadores para a infraestrutura da internet emergente, virou a empresa mais valiosa do mundo por alguns meses, e quando a poeira baixou descobriu-se que a demanda real era uma fração da demanda projetada pelos analistas. Os roteadores eram excelentes. A tecnologia era revolucionária. A internet, de fato, mudou o mundo. E mesmo assim a ação caiu oitenta por cento e levou quinze anos para recuperar o pico. Quem comprou pá no auge da febre do ouro voltou para casa com a pá, sim, mas sem o ouro.

Me diz uma coisa: alguém perguntou ao Morgan Stanley qual é a taxa real de retorno sobre o capital investido pelos clientes finais da Dell? Os hyperscaler que estão comprando servidores aos caminhões, eles têm modelo de negócio comprovado para a IA generativa, ou estão queimando bilhões na esperança de que algum dia o usuário pague pelo serviço? A resposta incomoda. A OpenAI queima dinheiro num ritmo que faria corar um governo socialista. A Anthropic depende de injeções constantes de capital. O Google e a Microsoft justificam o investimento como defesa estratégica, não como retorno mensurável. E é essa cadeia de promessas que sustenta o preço-alvo de 170 dólares.

O mais saboroso é o roteiro previsível que vai se desenrolar nos próximos trimestres. Os bancos continuarão elevando preços-alvo, os fundos continuarão entrando, os executivos continuarão dando entrevistas sobre o "futuro transformacional", e em algum momento, talvez daqui a seis meses, talvez daqui a dois anos, alguém vai notar que as projeções de demanda estavam infladas em trezentos por cento. Aí virão as demissões em massa, o write-down dos estoques, a revisão para baixo das projeções e o mesmo Morgan Stanley publicando um relatório explicando, com a serenidade dos que nunca erram, que "o mercado superestimou o ciclo". E o cidadão comum, que comprou Dell a 170 porque o banco disse que ia para 220, vai descobrir que o sistema financeiro funciona muito bem para quem está dentro dele e muito mal para quem só observa de fora.

Nada disso significa que a Dell é uma empresa ruim ou que a inteligência artificial é farsa. A empresa é sólida, o setor é real, a tecnologia tem aplicações genuínas. Significa apenas que a precificação atual reflete uma euforia financiada por dinheiro fácil, e que dinheiro fácil sempre, sem exceção, termina em ressaca dolorosa. A pergunta não é se a correção virá. É quem estará segurando o mico quando ela chegar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.