A cena é digna de manual de como a finança moderna confunde sintoma com cura. Morgan Stanley sobe o preço-alvo da Harley-Davidson, aplaude o anúncio de corte de custos, e o papel reage no pregão como se a empresa tivesse descoberto o motor de combustão pela segunda vez. Quer dizer, a fabricante mais icônica do motociclismo americano está demitindo gente, fechando linha, racionando matéria-prima, e o analista de Nova York escreve relatório dizendo que isso é bullish. É bullish do mesmo jeito que vender o sofá da sala para pagar a conta de luz é reestruturação patrimonial.

Olha, cortar custo nunca foi estratégia, é confissão. Empresa que cresce não corta, expande. Empresa que inova não enxuga, contrata. O que a Harley está fazendo é o velho ritual de companhia em decadência estrutural: trocar lucro operacional verdadeiro por lucro contábil fabricado na demissão. O acionista de curto prazo agradece, o trimestre fecha bonito, o bônus do CEO sai gordo, e a empresa segue rumo ao penhasco com um sorriso de relatório anual. Funcionou com a Kodak até não funcionar mais. Funcionou com a Sears até não funcionar mais. Funciona com a Harley enquanto a próxima geração de motociclista não terminar de descobrir que motocicleta elétrica chinesa custa um terço do preço e anda mais.

Me diz uma coisa: por que o mercado celebra demissão como se fosse engenharia financeira sofisticada? Porque o sistema inteiro foi treinado para olhar para o número do trimestre como se fosse a saúde do negócio. Não é. O número do trimestre é a maquiagem do trimestre. A saúde do negócio está na pergunta que ninguém faz no conference call: quem vai comprar essa moto daqui a dez anos? O cliente fiel da Harley tem cinquenta e oito anos de idade média e está envelhecendo mais rápido do que a marca consegue rejuvenescer. O jovem de hoje não quer barulho, não quer cromo, não quer pagar entrada de casa numa motocicleta que serve para passear no domingo.

E aí entra a parte mais interessante, que é seguir o dinheiro de verdade. Quem ganha com o corte de custos não é o operário americano que ajudou a construir a lenda do Made in USA da Harley. Quem ganha é o gestor de fundo que zera posição no rali pós-anúncio, é o executivo que executou opção de compra com preço descontado, é o banco que cobra para reorganizar a dívida da empresa. O trabalhador da fábrica em Milwaukee, esse, vira linha de rodapé no balanço, contabilizado como otimização estrutural. A palavra é maravilhosa, otimização estrutural. Tem o mesmo sabor anestésico de realocação de talentos e desalavancagem operacional. Tudo isso quer dizer a mesma coisa: gente perdendo emprego para o gráfico subir mais cinco por cento numa terça-feira.

A Harley é também um sintoma de algo maior, que é a doença crônica do capitalismo americano contemporâneo, viciado em recompra de ação e em engenharia financeira em vez de produto. A empresa que antes era símbolo de uma cultura, de uma estética, de uma forma de viver, virou planilha. Quando você transforma identidade em ativo financeiro, o mercado precifica o ativo até o ativo virar pó. Aconteceu com General Electric, está acontecendo com Boeing, vai acontecer com Harley se a coisa continuar nesse ritmo. E o sujeito que recomenda compra hoje vai recomendar venda daqui a dois anos com a mesma cara de quem entende do assunto.

O que ninguém quer dizer em voz alta é que a Harley não tem problema de custo, tem problema de propósito. Está vendendo nostalgia num mundo que perdeu a paciência com nostalgia cara. Nenhuma planilha do Morgan Stanley vai consertar isso, porque planilha não fabrica desejo. Desejo se constrói com produto, com história, com coerência, e isso a Harley terceirizou para o departamento de marketing há vinte anos. O banco está afagando o cavalo morto e cobrando comissão pelo carinho.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.