A notícia parece trivial, quase entediante para quem lê manchete financeira de manhã com o café. Morgan Stanley subiu o preço-alvo da Kuehne + Nagel, gigante suíça de logística, porque a empresa está controlando custos. Fim da história. Só que não é fim da história, é o começo de uma lição que o Ocidente esqueceu e que deveria estar tatuada na testa de cada ministro da Fazenda, de cada presidente de banco central, de cada secretário municipal que distribui verba como se fosse confete em desfile de escola de samba.
Repare na mecânica elementar do episódio. Uma empresa privada, operando num setor brutalmente competitivo, com margens apertadas e clientes que trocam de fornecedor no primeiro centavo de diferença, faz aquilo que qualquer dona de casa fazia antes de o Estado convencê-la de que economizar é coisa de pobre sem ambição: ela olha para dentro, identifica gordura, corta. O mercado, que não tem sentimento nem ideologia, responde na hora. Analistas revisam modelos, investidores recalibram, o preço-alvo sobe. Há uma justiça fria e bonita nisso, quase geométrica. Quem produz mais com menos é premiado. Quem esbanja é punido.
Agora faça o exercício inverso, porque é aí que a ferida aparece. Imagine um governo qualquer, nacional, estadual ou municipal, anunciando no mesmo dia que vai cortar quinze por cento dos custos operacionais sem demitir ninguém essencial, sem quebrar serviço, só enxugando duplicidade, contrato superfaturado, auxílio-paletó e verba de representação. O que aconteceria? Passeata, editorial enfurecido, economista de banco público dizendo que o corte vai derrubar o PIB, sindicato de servidor batendo panela, colunista chamando de neoliberal, ultraliberal, ultraneoliberal, qualquer prefixo que sirva para assustar o eleitor distraído. A mesma virtude que enriquece a empresa suíça é tratada como crime quando aplicada ao Leviatã que cobra do contribuinte para existir.
O truque está na natureza do dinheiro que cada um administra. A empresa gasta o que é dela, ou melhor, o que os acionistas confiaram a ela sob a condição inegociável de receberem mais de volta. Errou, pagou. Gastou mal, perdeu cliente, perdeu valor de mercado, perdeu o emprego da diretoria inteira. Já o Estado gasta o que tirou do bolso alheio sob ameaça, aquilo que nenhum contribuinte entregaria voluntariamente se a alternativa fosse a cadeia. Quando o dinheiro é dos outros e o erro não custa nada a quem decide, o incentivo natural do burocrata é expandir, nunca contrair. Cada corte é um inimigo criado, cada aumento é um apadrinhado conquistado. A matemática política é inversa à matemática econômica, e quem ainda não percebeu isso vota em manada há quarenta anos achando que vai melhorar na próxima eleição.
Há ainda uma segunda camada, mais sutil, que a manchete esconde. Kuehne + Nagel opera num setor que foi brutalmente atacado nos últimos anos por tudo que o planejamento estatal consegue inventar: lockdowns que paralisaram cadeias logísticas inteiras, tarifas geopolíticas que transformaram rotas tradicionais em labirintos, impostos verdes que encareceram combustível, regulações trabalhistas que engessaram operações. A empresa sobrevive e prospera não por causa do ambiente criado pelos governos, mas apesar dele. Cada euro cortado em custo é, no fundo, um euro arrancado das garras de alguma política pública bem-intencionada que tornou a vida mais difícil. O mercado livre não é aquele paraíso imaginado pelos manuais, é um campo de batalha onde os sobreviventes ficam porque aprenderam a escapar das armadilhas montadas por quem diz querer ajudar.
Fica a pergunta que ninguém faz porque é constrangedora demais. Se controlar custo é virtude suficiente para um banco de investimento americano subir o preço-alvo de uma empresa suíça, por que essa mesma virtude aplicada ao orçamento público é tratada como heresia, crueldade, insensibilidade social? A resposta é simples e desconfortável. Porque na empresa quem paga pelo desperdício é o dono, e dono odeia perder dinheiro. No Estado quem paga é o contribuinte, e contribuinte não manda em nada, só obedece o boleto. A diferença entre prosperidade e miséria, entre Suíça e qualquer país que você esteja pensando agora, cabe nesse pequeno detalhe sobre quem sente o custo de cada centavo gasto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.