A Morgan Stanley rebaixou as ações da e.l.f. Beauty alegando perda de participação de mercado, e o papel sentiu na hora. Quem acompanhava a tese sabia que a empresa vinha sendo vendida como o caso raro de marca de cosméticos acessíveis que conseguia roubar shelf space das gigantes tradicionais. Funcionou por um tempo. Agora não está funcionando mais, e o analista do banco fez o que analista é pago para fazer, mesmo que com atraso, escreveu o óbvio em papel timbrado.

Olha, o que está acontecendo aqui é o mecanismo mais antigo e mais belo do capitalismo em operação, sem nenhum decreto, sem nenhuma audiência pública, sem nenhuma comissão de notáveis discutindo o futuro do setor de beleza. Milhões de adolescentes, donas de casa e mulheres de todas as idades, cada uma com seu pequeno orçamento e suas pequenas preferências, decidiram individualmente que outra coisa serve melhor. Nenhum executivo da e.l.f. consegue olhar nos olhos dessas consumidoras e ordenar que voltem. Nenhum lobista consegue aprovar uma lei obrigando ninguém a passar batom da marca. E é exatamente por isso que funciona.

Compare isso, só por um instante, com o que acontece quando o produto em questão é fornecido pelo Estado. Quando a escola pública perde qualidade, ninguém rebaixa. Quando o atendimento do SUS piora, ninguém corta a recomendação. Quando a Receita aumenta a complexidade tributária, não existe Morgan Stanley alguma para dizer aos contribuintes que mudem de fornecedor, porque fornecedor só tem um e ele está armado. A diferença entre o mercado e o monopólio estatal está toda contida nesse pequeno episódio do varejo de cosméticos, e quase ninguém presta atenção.

Há também a parte que não se vê, que é onde mora a verdade econômica de verdade. Cada real que a e.l.f. perde de receita não evapora, ele migra. Vai para concorrentes que entenderam melhor o que a consumidora queria, vai para marcas novas que nem existiam dois anos atrás, vai para categorias inteiras que ainda nem nasceram. O capital se realoca silenciosamente, sem que nenhum ministério precise de plano quinquenal, sem que nenhum BNDES precise emprestar a juros subsidiados o dinheiro do contribuinte para escolher o vencedor. O sistema de preços faz o trabalho, e faz de graça, e faz melhor.

Me diz uma coisa, quantos planos industriais já foram anunciados nas últimas três décadas prometendo gerar campeões nacionais em setor X ou Y, e quantos desses campeões viraram pó assim que a teta do subsídio secou? A e.l.f. cresceu sem decreto, e agora encolhe sem decreto, e isso é a coisa mais saudável que pode acontecer com uma empresa. O luto do investidor é o lucro do consumidor, que está pagando menos ou recebendo mais por outro produto em alguma prateleira que o relatório do banco nem mencionou.

O que essa notícia ensina, para quem tem ouvidos, é que a destruição criativa não precisa de permissão. Ela acontece quando se permite que aconteça, e o resultado é sempre o mesmo, capital migra para onde é mais útil, preços ajustam, gostos evoluem, e a sociedade fica um pouquinho mais rica no agregado, mesmo quando algum acionista específico fica mais pobre. Quem lamenta a queda da ação está, no fundo, lamentando que a consumidora seja livre. E consumidora livre é a única coisa que separa um mercado de um cativeiro com vitrine.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.