A Morgan Stanley rebaixou a Freeport-McMoRan e, de repente, os analistas do andar de cima do edifício envidraçado resolveram descobrir que a Indonésia existe. Gente, a Indonésia é aquele país onde uma mina de cobre e ouro gigantesca, Grasberg, produz fortunas há décadas sob a tutela de um governo que muda de humor como adolescente mal dormido. O que estão chamando de "preocupação com a Indonésia" é, na verdade, a descoberta tardia de que um ativo refém de capricho regulatório vale menos do que a mesma pedra debaixo de uma jurisdição séria. Espantoso, não? Precisou do bullet point do banco para o mercado notar o óbvio.
Me diz uma coisa: quantas vezes esse filme já passou? A Indonésia obrigou a Freeport a transferir participação majoritária para a estatal Inalum em 2018, forçou a construção local de fundição sob ameaça de suspender exportação, mexe em alíquotas de royalties como quem mexe em botão de ar-condicionado, e ainda empurra exigência de doméstica processamento como se fosse política industrial e não pedágio disfarçado. Cada intervenção foi vendida como "soberania nacional", "valor agregado", "desenvolvimento". Palavras bonitas, todas. Resultado prático: margem menor, incerteza maior, prêmio de risco que deveria estar desde o primeiro dia embutido no preço da ação, mas que o consenso de Wall Street, sempre apaixonado por múltiplos de EBITDA, teima em varrer para baixo do tapete até que alguém grite.
Siga o dinheiro, que fica mais claro. Quem ganha quando um governo aperta a porca de uma multinacional mineradora? Em primeiro lugar, a burocracia local que passa a administrar mais fluxo de caixa, mais contratos, mais cargos de indicação política na estatal que "parceira" a empresa estrangeira. Em segundo, os fornecedores domésticos criados na canetada, cuja competitividade real seria pífia num mercado aberto, mas que prosperam sob reserva compulsória. Em terceiro, os políticos que viajam em jato para inaugurar fundição e cortar fita. Quem perde? O acionista minoritário, que achou que estava comprando cobre e ouro e descobriu que comprou uma opção política com strike price decidido em Jacarta. E o consumidor global de cobre, que paga mais caro porque a oferta mundial é deliberadamente estrangulada para gerar rendas extraordinárias a um pequeno arranjo.
Tem ainda a ironia fiscal de sempre. A justificativa pública para apertar a mineradora é que o país precisa "capturar mais valor" do recurso natural. Tradução honesta: o governo gasta mais do que arrecada, a moeda ruge, o orçamento está furado, e a solução sempre é a mesma velha receita de todo regime que não sabe equilibrar suas próprias contas, ou seja, sangrar quem não pode fugir. Minas não se mudam para Dublin. O capital fixo é refém geográfico, e todo governo populista percebe isso mais cedo ou mais tarde. O que o Morgan Stanley está chamando de "risco Indonésia" é só o nome técnico para "o governo está quebrado e vai passar a conta para quem não consegue correr".
E aqui o espelho para o investidor brasileiro fica grande. Porque essa história de regulação que muda ao sabor do ciclo eleitoral, participação estatal compulsória em setores estratégicos, exigência de conteúdo local que encarece projeto sem gerar eficiência, royalties que sobem quando o preço da commodity sobe e não descem quando cai, tudo isso não é exótico tropical indonésio. É manual de política industrial latino-americana também. Quem olha para a Vale, para a Petrobras, para qualquer concessão de energia ou saneamento, e não vê o mesmo padrão de captura política vestida de interesse público, está olhando com os olhos fechados. O rebaixamento da Freeport é um lembrete de que no longo prazo nenhum ativo sobrevive com saúde num ambiente onde a regra do jogo muda por decreto.
A lição é velha e os analistas a reaprendem a cada década com a cara nova de espanto. Mineradora não é empresa de tecnologia, não se move, não escapa. Opera exatamente onde o metal está, e o metal está onde Deus colocou, geralmente em países cujas instituições lembram mais um suquinho de goiaba do que um contrato inglês. O prêmio de risco soberano não é uma linha exótica de planilha, é a alma do investimento em recursos naturais. Quem ignora, paga. E o preço, como sempre, chega tarde, com rebaixamento de analista que simula descoberta do que já era visível a olho nu.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.