Faz mais de uma década que a imprensa tecnológica americana tenta vender ao cidadão comum a ideia de que o futuro do transporte é um carro sem ninguém no banco do motorista. Bilhões de dólares foram despejados em pesquisa, lobby regulatório e campanhas de relações públicas para convencer o sujeito que pega trânsito todo dia de que ele deveria confiar sua vida e a de seus filhos a um conjunto de sensores, câmeras e linhas de código escritas por engenheiros que, em muitos casos, nem carteira de habilitação têm. E o resultado de todo esse esforço titânico? Pesquisa após pesquisa, o público simplesmente não quer saber. O ceticismo é profundo, consistente e, para desespero dos investidores, inabalável.

Existe algo de revelador nessa resistência. Não se trata de ludismo, não se trata de medo irracional do novo. O sujeito médio aceita sem pestanejar um smartphone que monitora cada passo seu, usa aplicativos de banco que movimentam seu dinheiro por ondas invisíveis e confia no GPS para encontrar um restaurante numa cidade desconhecida. A questão do robotáxi é outra. É a questão de quem tem o controle. Quando você dirige, a responsabilidade é sua, o erro é seu, a decisão de frear ou acelerar é sua. Quando você entra num veículo autônomo, está delegando a decisão mais básica da existência, a de preservar a própria vida, a uma caixa preta cujo funcionamento interno ninguém, nem mesmo seus criadores, consegue explicar por completo. O instinto humano fareja o perigo mesmo quando a razão técnica insiste que as estatísticas são favoráveis.

E aí mora a fraude intelectual. Os entusiastas do carro autônomo adoram citar números de acidentes causados por erro humano, como se a solução para a falibilidade do homem fosse eliminar o homem da equação. É o mesmo raciocínio que levou burocratas ao longo da história a concluir que, se o povo erra ao escolher, basta tirar do povo o direito de escolher. O argumento estatístico esconde uma premissa autoritária: a de que sistemas centralizados, geridos por corporações com interesses próprios, são mais confiáveis do que a decisão descentralizada de milhões de indivíduos. Qualquer pessoa com um mínimo de vivência sabe que a propaganda dos sistemas infalíveis sempre antecede o desastre que ninguém previu.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. As empresas que investiram fortunas em veículos autônomos precisam desesperadamente de adoção em massa para justificar as avaliações infladas que apresentaram a seus investidores. Cada pesquisa que mostra rejeição popular é uma faca no valuation. Por isso a insistência, por isso as campanhas de "educação do público", que é o nome bonito que o marketing dá para a tentativa de convencer as pessoas de que seus instintos estão errados. É o velho truque: quando o produto não vende, a culpa nunca é do produto, é do consumidor que não entendeu a genialidade da oferta. Aconteceu com dezenas de tecnologias que prometiam revolucionar o mundo e hoje apodrecem no cemitério das ideias que ninguém pediu.

O mais irônico é que a resistência ao robotáxi não vem de onde a elite tecnológica imagina. Não são velhos tecnofóbicos recusando o futuro. São pessoas de todas as idades, classes e escolaridades que, confrontadas com a pergunta simples "você entraria num carro sem motorista?", respondem com um não tranquilo e inapelável. É o bom senso funcionando exatamente como deveria. A tecnologia serve ao homem quando o homem mantém as mãos no volante, literal e figuradamente. No momento em que a conveniência exige a entrega total do controle a sistemas opacos operados por corporações que já demonstraram repetidamente seu desprezo pela privacidade e pela autonomia individual, o ceticismo não é ignorância. É sabedoria.

Que fique registrado: o problema dos robotáxis não é técnico. Engenheiros brilhantes certamente resolverão os desafios de navegação, sensoriamento e decisão em tempo real. O problema é de confiança. E confiança não se compra com bilhões em publicidade nem se impõe por decreto regulatório. Confiança se conquista, e se conquista devagar, com transparência, com prestação de contas, com a humildade de admitir falhas. Virtudes que, convenhamos, não são exatamente o forte das corporações que lideram essa corrida. Enquanto isso, o povo segue com as mãos no volante. E faz muito bem.

Com informações da The Verge. A análise e opinião são do O Algoz.