A Motorola Solutions anunciou a compra de uma startup especializada em neutralização de drones hostis por US$ 1,5 bilhão, e a imprensa especializada tratou o assunto como se fosse mais uma fusão corriqueira do Vale do Silício. Não é. Quando uma fabricante de rádios policiais decide gastar o equivalente ao orçamento anual de uma cidade média brasileira para entrar no negócio de derrubar drones, o leitor atento precisa parar e perguntar: quem está comprando esse serviço, e com que dinheiro?

A resposta é tão antiga quanto incômoda. O cliente é o Estado, em suas mais variadas roupagens, da polícia municipal americana ao Pentágono, passando por aeroportos, presídios e eventos esportivos. E o dinheiro, claro, é do contribuinte. A Motorola não fez essa aquisição porque acredita que fazendeiros vão começar a comprar sistemas antidrone para proteger plantações de soja. Fez porque enxergou, com a clareza de quem entende o jogo, que a próxima década será uma orgia de contratos públicos justificados pelo espantalho do drone terrorista, do drone narcotraficante, do drone qualquer-coisa que sirva para abrir o cofre estatal.

Olha, há uma simbiose perversa entre o medo manufaturado e o orçamento ampliado que se repete desde os tempos em que vendiam pólvora para reis assustados com vassalos armados. Cria-se a ameaça, vende-se a solução, e a fatura chega para quem nunca pediu nada. O drone é o novo bicho-papão. Ele existe, claro, e representa risco real em determinados contextos. Mas a distância entre o risco real e o orçamento bilionário aprovado para combatê-lo é justamente o espaço onde mora o lucro garantido das contratadas. Por isso a Motorola pagou US$ 1,5 bi, não US$ 150 milhões. Ela não está comprando tecnologia, está comprando posicionamento na fila do guichê público.

E aqui mora a engrenagem que ninguém explica nos jornais de negócios. Quando uma empresa cresce vendendo para o mercado, ela precisa convencer cada cliente, um por um, de que seu produto vale o preço. Quando cresce vendendo para o Estado, ela precisa convencer apenas o lobista certo, o congressista certo, o secretário certo. O consumidor final, aquele que paga via imposto, não tem voto na compra, não tem direito de recusa, não tem alternativa. É o cliente cativo perfeito, aquele que assina o cheque sem ler o contrato. Multiplique isso por décadas e você entende por que o setor de defesa e segurança pública é o único onde inovação custa mais caro com o passar do tempo, não menos.

Quer dizer, a Motorola entendeu a lição que toda corporação madura do setor securitário aprendeu há muito tempo: inovar para o mercado livre é arriscado, inovar para o Estado é garantido. Você vende um sistema antidrone para um aeroporto privado e ele vai questionar cada centavo, exigir testes, comparar com concorrentes. Vende para a TSA, para o DHS, para a Polícia Federal de qualquer país, e a única pergunta será onde assinar. O dinheiro do contribuinte tem essa propriedade mágica de transformar qualquer produto em essencial e qualquer preço em razoável. É a alquimia perfeita, e custa caro a quem nunca foi consultado.

O detalhe que arremata o quadro é que ninguém vai discutir, nos próximos meses, se o Estado deveria mesmo estar gastando bilhões com sistemas antidrone enquanto não consegue tapar buraco em rua, manter hospital funcionando ou educar criança em escola pública. A discussão será apenas qual fornecedor entrega melhor, qual contrato é mais vantajoso, qual tecnologia é mais avançada. O pressuposto de que esse gasto é necessário nunca será questionado, porque questionar o pressuposto é tirar comida da mesa de gente muito poderosa. A Motorola sabe disso. Por isso pagou US$ 1,5 bilhão sem piscar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.