A MS International anunciou a alienação de linhas de negócio consideradas não estratégicas e, no mesmo fôlego, atualizou o mercado sobre um contrato robusto na área de defesa. A ação sobe, os analistas batem palmas, os relatórios de banco falam em "foco estratégico" e "reposicionamento de portfólio". Traduzindo do dialeto corporativo para o português dos mortais: a empresa está trocando clientes que pagam com o próprio dinheiro por um cliente que paga com o dinheiro dos outros. E esse cliente, convenientemente, tem canhão, orçamento infinito e nenhum incentivo real para pechinchar.
Olha, ninguém precisa ser gênio para entender por que a bolsa festeja. Contrato de defesa, no mundo inteiro, é o santo graal do empresário cansado. Você não precisa convencer o consumidor, não precisa competir com chinês, não precisa fazer marketing, não precisa nem entregar no prazo direito. Basta ter os contatos certos, o lobby afinado e o carimbo do ministério. O resultado aparece no balanço com margens que envergonhariam qualquer negócio honesto que dependa de gente comum decidindo se vale a pena comprar. Quer dizer, é o sonho de dez entre dez CEOs: sair do mercado onde o cliente escolhe e entrar no mercado onde o cliente é obrigado, via imposto, a comprar querendo ou não.
E aí vem a parte que ninguém no comunicado ao mercado tem coragem de dizer. Cada libra que a empresa vai receber desse contrato saiu do bolso do contribuinte britânico, que não foi consultado, não assinou embaixo e provavelmente nem sabe que existe. As linhas civis que estão sendo descartadas produziam algo que alguém, em algum lugar, queria comprar voluntariamente. Isso é riqueza real. Substituir isso por um contrato estatal é destruir riqueza produtiva e chamar o cadáver de crescimento. O emprego que aparece na fábrica de armamento é visível, fotografável, presta para foto de político cortando fita. O emprego que morreu na linha civil descontinuada, esse ninguém filma.
Me diz uma coisa: quando foi que a Europa decidiu que reindustrialização significa fabricar munição em vez de fabricar coisa que serve para viver? A resposta é conhecida de quem estuda um pouco de história econômica. Quando o Estado percebe que não consegue mais entregar prosperidade genuína porque sufocou o setor produtivo com impostos, regulação e moeda podre, ele reveste o próprio inchaço com verniz patriótico. Chama de segurança nacional o que antes chamaria de gastança. E a indústria bélica, sempre educada, aceita o convite com um sorriso discreto e uma reverência aos acionistas.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Quem é acionista dessas empresas de defesa? Fundos institucionais, bancos, gestoras. Quem financia campanha de político que aprova orçamento militar? Adivinha. E quem paga tudo isso via inflação, imposto e dívida pública que os netos vão herdar? O sujeito que acorda às cinco da manhã para trabalhar. É o mesmo esquema de sempre, com roupagem nova e trilha sonora de tambores marciais. A cerca que separa capitalismo de conluio empresa-Estado foi derrubada faz tempo, e ninguém que se beneficia da derrubada tem interesse em explicar por que ela estava lá.
O balanço da MS International vai ficar bonito nos próximos trimestres, disso não há dúvida. Mas balanço bonito construído sobre orçamento militar não é sinal de empresa vencedora, é sintoma de sociedade que trocou a produção pelo parasitismo institucionalizado. A festa acaba sempre do mesmo jeito, com a conta chegando na mesa de quem nunca foi convidado para o jantar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.