O National Australia Bank, segundo maior credor da Austrália, frustrou o mercado no primeiro semestre. O lucro veio abaixo do esperado, e a justificativa oficial é uma daquelas que merecem moldura. O crescimento robusto da carteira de crédito foi neutralizado por custos mais altos com software e por provisões maiores para devedores duvidosos, em meio a uma economia que está visivelmente piorando. Quer dizer, o banco emprestou mais, gastou mais com tecnologia, e ainda assim entregou menos. Alguém precisa explicar para os acionistas onde mora a competência nessa equação.

Olha, todo banco do planeta gasta com software. É commodity, não diferencial competitivo. Quando um executivo bancário aparece numa teleconferência de resultados culpando o orçamento de TI pelo lucro frustrado, está confessando que perdeu o controle do CAPEX e está terceirizando a responsabilidade para uma planilha. Bancos que sabem o que fazem tratam tecnologia como infraestrutura, não como surpresa contábil. O que o NAB chama de custo de software, em qualquer fintech séria, chama-se investimento previsto e amortizado dentro do plano. A diferença é simplesmente quem está no comando.

Mas o detalhe mais revelador do balanço não é o software, é a provisão para perdas com crédito. O banco está se preparando para calotes, e isso conta uma história que o governo australiano tenta esconder há meses. A economia que sustentou décadas de prosperidade construída sobre minério, imigração e bolha imobiliária está finalmente cobrando a conta. Quando um banco aumenta provisões, ele está enxergando o que os políticos fingem não ver. O cidadão australiano vai descobrir, talvez nos próximos trimestres, que as taxas de juros que o banco central manteve artificialmente baixas durante anos não eram generosidade, eram dívida disfarçada. E dívida disfarçada sempre vira inadimplência declarada.

Me diz uma coisa, qual é o setor mais protegido, mais regulado, mais blindado de qualquer país desenvolvido? O bancário. Quem entra nesse mercado precisa de licença, capital mínimo, comitês de risco, auditoria cruzada e benção do regulador. E mesmo assim, com toda essa muralha de proteção contra a concorrência, instituições gigantes conseguem entregar resultados medíocres e pedir compreensão pelos custos de TI. É o privilégio funcionando exatamente como projetado, lucros privatizados quando dá certo, e narrativa de adversidade quando dá errado, sempre com o regulador por perto para garantir que ninguém de fora estrague o arranjo.

Há ainda a parte que ninguém quer dizer em voz alta. Bancos australianos, como bancos brasileiros, vivem do spread garantido por uma estrutura oligopolística que o Estado sustenta. Quando a economia esfria e o devedor começa a sumir, o modelo trinca. Aí surge a tentação de socorro, primeiro discreto, depois descarado, e o contribuinte é convidado a entrar na sala como sócio involuntário do prejuízo. Já vimos esse filme em 2008, em 2011, em 2020. O roteiro é sempre o mesmo, só mudam os atores e o sotaque.

O resultado do NAB não é uma anomalia contábil, é um sintoma. Mostra um sistema bancário inchado, dependente de juros administrados e de tomadores que estão ficando sem fôlego. Mostra uma economia real que perdeu o vigor que os indicadores oficiais ainda tentam maquiar. E mostra, sobretudo, que culpar o software pelo lucro fraco é o tipo de honestidade involuntária que escapa quando a desculpa boa já acabou. Banco que não sabe o que gasta com tecnologia também não sabe o que empresta, nem para quem.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.