O USS Boise ficou encostado num estaleiro por mais de onze anos. Neste período, oitocentos milhões de dólares do contribuinte americano foram consumidos em uma reforma que nunca terminou, num submarino que nunca mais mergulhou, conduzida por uma burocracia naval que, ao final, levantou a bandeira branca e anunciou que o melhor a fazer agora é simplesmente desmontar o casco. Observe bem o que aconteceu aqui: ninguém foi demitido, nenhum contrato foi cancelado por má performance, nenhuma corte marcial foi convocada. A resposta oficial ao maior desperdício naval da última década foi um comunicado protocolar e a promessa de que os "ensinamentos" serviriam para o futuro. Como sempre.

Siga o dinheiro. Sempre siga o dinheiro. Enquanto o Boise apodreciava no cais, os contratos de manutenção eram renovados, as faturas eram pagas, os consórcios de defesa reportavam margens saudáveis aos acionistas. O fracasso do projeto não interrompeu o fluxo de caixa, porque no universo da contratação pública o pagamento não está atrelado ao resultado, está atrelado à continuidade do processo. Num mercado real, uma empresa que cobra oitocentos milhões e entrega zero quebra e seus executivos vão procurar emprego. No ecossistema do complexo industrial-militar, ela renova o contrato e apresenta um novo cronograma otimista para a próxima década. O incentivo está completamente invertido, e a consequência é matematicamente previsível.

Mas o escândalo visível, o submarino enferrujado e o número astronômico, não é nem metade do problema. A outra metade é o que não aparece em nenhum relatório do Congresso. Oitocentos milhões de dólares retirados da economia produtiva americana ao longo de onze anos representam tecnologia que não foi desenvolvida, empresas que não foram capitalizadas, trabalhadores cujos salários poderiam ter produzido algo que alguém, em algum lugar, escolheria comprar voluntariamente. O submarino que nunca navegou tem um custo duplo: o que foi destruído para financiá-lo e o que foi impedido de existir por causa dele. Economistas de banco central nunca contabilizam esta segunda fatura, porque ela é invisível. Mas ela é igualmente real.

O problema estrutural aqui não é incompetência gerencial, embora ela esteja presente em abundância. O problema é que nenhum burocrata naval, por mais talentoso que seja, possui a informação necessária para coordenar um projeto desta complexidade sem os sinais que só o mercado gera. Preço, lucro, perda, falência: estes mecanismos existem para comunicar, em tempo real, se uma decisão está destruindo ou criando valor. Quando você os remove e substitui por orçamento aprovado pelo Congresso e contratos sem penalidade por atraso, você está pilotando no escuro. O avião eventualmente bate. O submarino eventualmente apodrece no cais. Não é azar, é geometria.

Há um padrão histórico tão repetido que já deveria constar nos livros didáticos como lei natural. Toda vez que um Estado moderno decide que pode gerir projetos de alta complexidade técnica com a mesma eficiência que o setor privado orientado pelo lucro, o resultado final é uma variação do USS Boise: anos de atraso, bilhões enterrados, ninguém responsabilizado e um relatório de "lições aprendidas" que a próxima equipe vai ignorar completamente. Os romanos perdiam legiões inteiras por causa de generais incompetentes e executavam os responsáveis. Os americanos perdem oitocentos milhões num submarino e publicam um press release. Não é uma questão de cultura militar: é uma questão de incentivos, e os incentivos estão quebrados de fábrica.

O USS Boise vai ser desmontado. As peças serão leiloadas, o aço será fundido, e o caso entrará para os arquivos como uma nota de rodapé embaraçosa na história da Marinha americana. O que não vai mudar é o sistema que tornou este desfecho inevitável desde o primeiro dia: contratos sem consequência, burocracia sem mercado e contribuintes sem opção de não pagar a conta. Quando o fracasso não custa nada a quem decide, ele se torna a única coisa que o sistema produz com eficiência garantida.

Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.