A NBA anunciou que pretende lançar uma liga europeia em outubro de 2027, com algo entre 10 e 16 franquias, licenças estimadas entre 300 milhões e 1 bilhão de dólares cada, e receita projetada de até 3 bilhões de dólares anuais. JPMorgan e Raine Group assessoram o negócio. Mais de 120 investidores já bateram na porta, incluindo donos do PSG, do Real Madrid, do AC Milan e até o fundo soberano saudita. A FIBA, parceira da operação, acena com a cabeça enquanto a EuroLeague ameaça processos. E no meio dessa salada continental, três nomes de peso do crédito privado americano aparecem na mesa: Apollo Global Management, Ares Management e Sixth Street Partners. Não como donos de times, atenção. Como banqueiros da festa.
Olha, é preciso entender o que realmente está acontecendo aqui, porque não é basquete. A Apollo criou um braço chamado Apollo Sports Capital com cerca de 6 bilhões de dólares para crédito e investimentos híbridos em esportes, já financiou o Nottingham Forest e o Sporting de Lisboa. A Ares fechou um fundo esportivo de 3,7 bilhões e colocou dinheiro no Miami Dolphins. A Sixth Street abriu escritório em Londres especificamente para expandir operações de crédito privado na Europa. Esses fundos não querem camisetas nem troféus. Querem taxas de juros, covenants e participação nos fluxos de receita. O esporte profissional virou a nova fronteira do private credit porque oferece algo que o mercado imobiliário e o tech deixaram de oferecer com a mesma previsibilidade: ativos com receita recorrente, contratos de TV blindados e uma base de consumidores emocionalmente cativos que não cancela a assinatura nem em recessão.
Me diz uma coisa, quando é que a expansão de uma liga esportiva deixou de ser uma questão de quadra e vestiário para virar uma operação de structured finance digna de roadshow? A resposta é simples: quando o dinheiro barato secou. Com os juros americanos onde estão, os fundos de crédito privado precisam de novos mercados para colocar capital a trabalhar. E a NBA, com seu marketing impecável e seu produto já testado globalmente, oferece o veículo perfeito. Os compradores das franquias europeias não vão pagar do próprio bolso. Vão tomar empréstimos estruturados desses fundos, com os direitos de transmissão e a receita de arena como garantia. É leveraged buyout travestido de paixão esportiva. O torcedor europeu vai aplaudir a enterrada sem saber que cada ponto vale um spread de crédito para um fundo em Manhattan.
Quer dizer, a EuroLeague, que já opera no prejuízo com a maioria de seus clubes, tem razão em tremer. Não porque a NBA traga concorrência esportiva, mas porque traz concorrência financeira. Times europeus sobrevivem de mecenato, de oligarcas russos, de xeiques entediados e de subsídios municipais disfarçados. A NBA traz consigo o aparato completo do capitalismo financeiro americano: securitização, alavancagem, contratos de naming rights e merchandising industrial. É como colocar um tanque de guerra numa briga de facas. A questão não é se a liga europeia da NBA vai funcionar como espetáculo esportivo. A questão é se o modelo financeiro que a sustenta é sólido ou se estamos diante de mais uma bolha inflada por crédito fácil e projeções otimistas de receita num continente onde o basquete, com todo o respeito, é o quarto esporte mais popular depois do futebol, do tênis e provavelmente do ciclismo.
O mais revelador de tudo é o silêncio sobre o risco. Ninguém fala dos 120 investidores que não vão conseguir licença, do dinheiro gasto em due diligence que vai para o ralo, das cidades europeias que vão oferecer isenções fiscais e terrenos públicos para atrair franquias e depois descobrir que o retorno prometido era PowerPoint, não realidade. A Bloomberg já reportou pushback de investidores sobre os termos propostos pela NBA. Donos de clubes europeus reclamam que lhes pedem propostas bilionárias sem apresentar detalhes operacionais. É o velho roteiro: primeiro cria-se a euforia, depois vendem-se os ingressos, e só quando todo mundo já pagou é que se descobre se o show presta. Wall Street sabe fazer isso melhor do que ninguém. O esporte é o pretexto. O crédito é o produto. E o torcedor, como sempre, é o último a saber que está financiando a margem de lucro de quem nunca assistiu a um jogo na vida.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.