O NBPE, veículo listado em Londres que aplica em private equity globalmente, anunciou crescimento de portfólio e aceleração de retornos no primeiro trimestre de 2026, e o mercado reagiu como sempre reage a esse tipo de notícia, com aquele entusiasmo educado de quem prefere não perguntar de onde vem o combustível da festa. Olha, ninguém duvida que existam gestores competentes no private equity, mas há uma diferença abissal entre lucrar criando valor real e lucrar cavalgando uma onda de crédito artificialmente barato que foi fabricada nos andares mais altos dos bancos centrais ocidentais. A manchete celebra performance, e a pergunta honesta seria outra, qual a parcela desse retorno é talento e qual é simplesmente o efeito colateral de uma década e meia de juros reprimidos que inflou todo ativo de risco do planeta.
Private equity, no fundo, é o nome elegante para uma operação que depende quase religiosamente de alavancagem, e alavancagem depende de juros, e juros dependem de quem aperta o botão da impressora. Quando o custo do dinheiro foi mantido próximo de zero por anos a fio, comprar empresa endividando ela própria, recauchutar margem com corte e revenda virou esporte fácil. O retorno parecia mágico porque o denominador estava sendo achatado por decreto monetário. Quer dizer, não era génio do gestor, era subsídio embutido na taxa básica que ninguém votou e ninguém aprovou.
E aqui entra a parte que as colunas de mercado não gostam de tocar. Toda essa liquidez não caiu do céu. Ela foi extraída de alguém. Foi extraída do poupador que viu seu dinheiro perder poder de compra silenciosamente, do aposentado que acreditou na renda fixa e descobriu que a renda fixa virou perda fixa, do trabalhador que segue ganhando em moeda corroída enquanto os ativos financeiros sobem em outra galáxia. O que se vê é o relatório trimestral do fundo brilhando, o que não se vê é a transferência colossal de patrimônio que financiou esse brilho, dos que produzem para os que rotacionam papéis.
O detalhe sórdido do private equity moderno é que ele se tornou o dobermann favorito do dinheiro fácil, e dobermann bem alimentado parece domesticado até o dia em que não está mais. Quando os bancos centrais começarem a apertar de verdade, e há sinais de que o ciclo de tolerância com inflação está chegando ao fim, esses portfólios alavancados descobrirão que a maré desce mais rápido do que sobe. As empresas compradas com dívida vão ter que rolar essa dívida em outro patamar de juros, e aí a matemática que parecia genial vira o que sempre foi, contabilidade criativa apostando contra o relógio.
Há também o pequeno problema moral, frequentemente esquecido, de que muito desse setor opera numa zona cinzenta de captura regulatória, brechas tributárias arquitetadas em paraísos legais e uma promiscuidade saudável com gabinetes que decidem sobre regulação financeira. O sujeito comum paga imposto de renda completo sobre seu salário, o gestor de private equity paga alíquota de ganho de capital sobre carry, e tudo isso é apresentado como meritocracia. Não é. É arranjo. E arranjo tem nome, tem endereço, tem lobista no parlamento, e tem padrinho no banco central. Seguir o dinheiro de verdade leva sempre ao mesmo lugar.
Então quando vier a próxima manchete celebrando a performance trimestral de mais um veículo de private equity, vale a pena lembrar que o capitalismo de verdade, aquele que enriquece quem inventa, quem produz, quem entrega valor genuíno ao consumidor, não precisa de banco central bombando liquidez para parecer atraente. O capitalismo de compadrio, esse sim, vive de respiradores monetários. A festa continua enquanto o cassino estiver aberto, e o cassino só está aberto porque alguém, em algum lugar, está sendo silenciosamente roubado para pagar a entrada de quem já estava lá dentro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.