A Netacea, plataforma britânica especializada em detecção de bots maliciosos, anunciou crescimento de 42% na receita no primeiro semestre de 2026, com forte expansão em contratos corporativos de grande porte. A notícia foi vendida como sinal de vitalidade do setor de cibersegurança, mas quem lê com atenção percebe outra coisa: uma empresa não cresce 42% num semestre porque o mundo está mais seguro. Cresce porque está mais perigoso. E o perigo, convenientemente, não para de aumentar num ritmo que sustenta faturamentos exponenciais ano após ano.
Olha, existe uma dinâmica curiosa no mercado de segurança digital que ninguém gosta de discutir em voz alta. Toda vez que uma nova geração de bots aparece, aparece junto uma nova geração de soluções para combatê-la. Toda vez que uma nova solução vira padrão, aparece uma geração ainda mais sofisticada de ataques que a torna obsoleta. É um ciclo perpétuo de arms race digital em que os dois lados prosperam simultaneamente, e o custo dessa festa toda recai sobre o consumidor final, que paga mais caro pelo ingresso do show, pela passagem aérea, pelo tênis do site de e-commerce, sem saber que uma fração significativa do preço vira orçamento de defesa contra scalpers automatizados.
Quer dizer, o que se vê é o crescimento heroico da empresa que protege lojas online contra fraudes. O que não se vê é a economia informal bilionária dos operadores de bots que compram estoque inteiro de produtos escassos em milissegundos, revendem por três vezes o preço em mercados paralelos, e financiam com esse lucro o desenvolvimento da próxima geração de ataques. Netacea combate um lado dessa equação e fatura com isso. O outro lado também fatura. O único que perde é quem tenta comprar um par de tênis pelo preço de tabela e descobre que sumiu do site antes de a página terminar de carregar.
Me diz uma coisa: você já parou para pensar por que a resposta institucional ao problema dos bots nunca é resolver o problema dos bots? Ninguém propõe legislação séria contra operadores de scalping automatizado, ninguém rastreia os data centers que hospedam essas operações, ninguém aperta os processadores de pagamento que liquidam as revendas. Em vez disso, cria-se um mercado paralelo de detecção que transfere o custo do combate para as próprias vítimas potenciais. É como se, diante de uma epidemia de assaltos, o governo decidisse não prender ladrões, apenas subsidiar a indústria de fechaduras. Alguém enriquece bastante nesse arranjo, e não é a vítima.
A história econômica é generosa em exemplos parecidos. Sempre que um problema gera indústria para si mesmo, a solução definitiva vira inimiga do modelo de negócio. Cidades medievais que viviam do pedágio nas muralhas não tinham interesse real em pacificar as estradas ao redor. Companhias de seguros marítimos do século dezenove prosperavam junto com a pirataria, não contra ela, e só passaram a apoiar sua repressão quando o lucro dos apólices ficou menor que o lucro das mercadorias que se perdiam. Netacea, e todo o setor em que ela opera, tem incentivo estrutural para que bots continuem existindo, evoluindo, faturando. O dia em que a internet ficar realmente segura, a receita cai 42% no semestre seguinte, e nenhum executivo aparece na Investing.com celebrando isso.
O mais irônico é o discurso técnico que reveste tudo. Machine learning, inteligência comportamental, análise de intenção, detecção heurística de anomalias. Tudo verdade, tudo sofisticado, tudo caro. Mas por trás do vocabulário de doutorado está uma constatação simples e antiga: alguém encontrou uma forma de vender a mesma corrida armamentista para todo mundo ao mesmo tempo, com a garantia contratual de que ela nunca termina. É um belo negócio, e a única razão pela qual chamamos isso de progresso tecnológico em vez de chamar de imposto privado sobre a atividade econômica digital é porque ninguém teve ainda a coragem de olhar para o balanço e traduzir o que realmente está acontecendo. A cibersegurança não venceu os bots. Ela os precificou.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.