A cena é quase cômica na sua previsibilidade. A empresa bate expectativa de receita do primeiro trimestre, reporta salto expressivo no lucro por ação, embolsa uma multa rescisória gorda do acordo abortado com a Warner Bros. Discovery, reitera as projeções para o ano inteiro, e o papel despenca. Simultaneamente, Reed Hastings anuncia que está saindo do conselho. Fundador de mais de duas décadas de casa, o sujeito que viu o negócio nascer quando a família americana ainda alugava VHS no sábado à noite, decide que já deu. Quer dizer, o mercado leu o comunicado inteiro, ignorou os números bonitos, e decidiu vender. Por quê?
Porque preço de ação não precifica o passado, precifica expectativa futura, e a expectativa futura da Netflix nunca mais será aquela do sujeito que descobre eletricidade. Aquele crescimento de assinantes dos anos dourados, quando a cada trimestre entrava mais gente no sistema do que cabia na planilha, acabou. Virou empresa madura, empresa adulta, empresa que depende de reajuste de preço, corte de gasto, combate ao compartilhamento de senha e venda de anúncio para continuar crescendo. Tudo coisa legítima, tudo coisa que qualquer negócio faz quando sai da adolescência. Só que o mercado pagava prêmio de sonho, e sonho acabou.
Olha, a multa da Warner é o detalhe mais delicioso desse trimestre. A Netflix tentou emplacar uma aquisição monstruosa, o negócio murchou, e ela saiu do processo com o bolso cheio de indenização. Lucro contábil trimestral inflado por receita não recorrente. Quem leu a linha do meio da demonstração financeira entendeu na hora que o dígito bonito do lucro por ação tem uma parte que não se repete no próximo trimestre, nem no seguinte. Quem leu só a manchete comemorou. O mercado, que lê a linha do meio, vendeu. E fez o que sempre faz quando desconfia que o resultado foi embelezado por evento único.
A saída de Hastings, nesse contexto, é o verdadeiro sinal de fumaça. Fundador não sai do conselho da sua própria criação por tédio. Sai porque enxerga o ciclo seguinte e prefere ver de fora, ou porque a empresa que ele construiu já não é mais a empresa que ele gostaria de dirigir. Nos dois casos, o recado é o mesmo: o período heroico da Netflix, aquele em que ela inventava um mercado do zero e ditava regra para Hollywood inteira, virou página. Agora é corporação grande, com acionista exigente, concorrência brutal da Disney, da Amazon, da Apple, do YouTube engolindo tempo de tela, e sem o apelo disruptivo que justificava múltiplo de startup.
Tem ainda a questão de fundo que ninguém gosta de tocar. A indústria inteira do streaming foi construída sobre uma década de juro zero e dinheiro fácil, em que queimar caixa para fazer série épica era estratégia aceitável porque capital não custava nada. Quando o ciclo monetário virou, os prejuízos passaram a doer, os custos de produção continuaram subindo, e todo mundo descobriu ao mesmo tempo que o cliente não quer pagar dez assinaturas diferentes. A Netflix sobreviveu melhor que os concorrentes porque chegou primeiro e tinha escala. Mas sobreviver não é o mesmo que voltar a crescer feito erva daninha, e é isso que o mercado está ajustando agora, trimestre após trimestre, com desconto no papel.
Me diz uma coisa, então. O que sobra quando uma empresa deixa de ser a promessa de reinventar o entretenimento e vira apenas mais uma distribuidora de conteúdo competindo por dois dígitos de margem? Sobra um negócio razoável, bem administrado, lucrativo, mas sem aquele fator mágico que justificava o múltiplo. Sobra realidade. E realidade, no mercado, sempre tem preço menor que fantasia. Hastings saiu no momento certo, como bom jogador de pôquer que levanta da mesa antes da virada. Os investidores que ainda estão sentados descobrirão, nos próximos trimestres, se as próximas cartas pagam o preço que continuam pagando pela cadeira.
Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.