A notícia chega com a discrição de quem sabe que está contrariando o catecismo oficial. A mineradora australiana New Hope Group reporta forte demanda por carvão no terceiro trimestre fiscal de 2026, e os investidores, esses sujeitos chatos que insistem em olhar planilha em vez de press release de ONG, reagem com entusiasmo. Quer dizer, depois de uma década inteira de declarações solenes garantindo que o carvão estava morto, sepultado e cremado, eis que o defunto se senta na mesa de jantar e pede mais uma porção. Não é coincidência, é consequência. É o que sempre acontece quando burocrata em Bruxelas decide, de caneta na mão, qual fonte de energia o mundo deve usar nos próximos cinquenta anos.
A engenharia da farsa é simples e merece ser desmontada com calma. Governos europeus passaram quinze anos sabotando seu próprio parque de geração térmica, desativaram usinas nucleares funcionais, jogaram bilhões em painéis solares fabricados na China com energia de carvão chinês, e quando o inverno chegou descobriram que vento e sol têm o péssimo hábito de não trabalhar sob demanda. Resultado previsível, e previsto por qualquer pessoa que tenha lido três páginas sobre como funciona uma rede elétrica: voltaram a queimar carvão em volumes que envergonhariam um siderúrgico do século dezenove. A Alemanha, campeã mundial em fechar usinas nucleares para reabrir minas de linhito, é o monumento vivo dessa esquizofrenia regulatória.
Olha, siga o dinheiro e a história se conta sozinha. Quem ganhou com a histeria climática não foi o planeta, foi o complexo industrial subsidiado, os fundos verdes que cobram taxa de administração para comprar ações que o governo se comprometeu a empurrar, e a turma das consultorias ESG que faturou auditando relatórios que ninguém lê. Quem perdeu foi o cidadão comum, que viu sua conta de luz triplicar e sua indústria nacional ser deportada para países que continuam queimando carvão sem pedir desculpa. O mercado, esse mecanismo teimoso que insiste em informar o que as pessoas realmente precisam em vez do que os ministros gostariam que precisassem, está agora reorganizando os preços para corrigir a distorção. A New Hope colhe a safra dessa correção.
O detalhe saboroso é que a demanda asiática, principal cliente da mineradora, não dá a mínima para as resoluções de Glasgow, Sharm el-Sheikh ou onde quer que tenha sido a última passarela climática. Índia, Vietnã, Indonésia e China constroem usinas a carvão na velocidade em que a Europa as desativa, e fazem isso porque entendem uma verdade elementar que o ocidente esqueceu: não existe industrialização sem energia barata, abundante e despachável. Pobreza energética é pobreza, ponto final. Quem decreta a morte do carvão a partir de um escritório aquecido em Berlim está, na prática, decretando que metade da humanidade fique sem geladeira. Só que essa metade, ingrata, resolveu não obedecer.
A lição que essa notícia entrega de bandeja é a mesma de sempre, repetida em ciclos que parecem desenhados para humilhar o planejador central. Quando o Estado tenta substituir o cálculo de bilhões de pessoas trocando bens e serviços por um decreto vindo do alto, o resultado é escassez, desperdício e um mercado paralelo que ressurge para atender a demanda real. Chamaram de transição energética o que foi, na prática, uma transferência de renda dos consumidores de eletricidade para os acionistas de empresas verdes politicamente conectadas. E agora que a conta não fecha, que as redes europeias balançam, que a indústria foge, o carvão volta pela porta dos fundos com lucro recorde. Não é vitória do carvão, é derrota da arrogância.
Fica o registro para quem ainda acredita em promessa de político sobre o futuro das commodities. O mesmo sujeito que jurou em 2015 que em 2025 não haveria mais carvão no mundo é hoje o mesmo que assina contrato emergencial para importar a tonelada a preço de ouro. A diferença entre a fantasia regulatória e a realidade do mercado se mede em pontos percentuais de inflação, em fábricas fechadas e em mineradoras australianas batendo recorde de demanda. O resto é discurso para fotografia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.