A New Mountain Finance acaba de precificar cento e cinquenta milhões de dólares em notas seniores numa oferta privada destinada a investidores institucionais qualificados, e a notícia chega embrulhada naquele papel celofane corporativo que esconde o que realmente importa. Notas seniores não garantidas, vencimento alongado, cupom ajustado ao apetite do momento, e a coreografia de sempre, a empresa diz que vai usar os recursos para "propósitos corporativos gerais", expressão que em tradução livre significa rolar dívida velha com dívida nova e torcer para o calendário ser generoso. O detalhe que ninguém da imprensa especializada está disposto a sublinhar é que esse tipo de captação só existe na escala que existe porque o crédito privado virou, nos últimos anos, o ralo por onde escoa o excesso de liquidez fabricado durante uma década de juros artificialmente comprimidos.

Quer dizer, alguém precisa explicar como uma indústria que praticamente não existia em 2008 chegou a quase dois trilhões de dólares em ativos administrados em menos de quinze anos. A resposta não está em nenhum gênio empreendedor descobrindo o fogo, está no andar de cima, no prédio de mármore em Washington onde decidem o preço do dinheiro para o planeta inteiro. Quando o banco central mantém juros perto de zero por tempo suficiente, fundos de pensão, seguradoras e family offices ficam desesperados por qualquer coisa que renda mais que um título do Tesouro. O crédito privado nasceu para preencher exatamente esse vazio, e cresceu engordado por uma distorção que ninguém na festa quis interromper.

Olha, o problema é que a festa entrou em fase de ressaca. As taxas que financiam essas operações já não são mais aquela piada generosa de 2021, e cada nova emissão precisa convencer investidores cada vez mais relutantes de que o tomador final vai conseguir pagar. A New Mountain empresta para empresas de médio porte que normalmente não conseguiriam emitir dívida no mercado público, e isso quer dizer, em bom português, que ela está intermediando capital para tomadores de risco mais alto num momento em que a economia americana dá sinais ambíguos. Quando uma gestora de crédito privado capta cento e cinquenta milhões em notas seniores, ela não está expandindo, está mantendo a máquina girando para que a estrutura não rache nas juntas.

Me diz uma coisa, em que mundo paralelo uma engenharia financeira dessas seria possível sem a presença permanente de um banco central disposto a socorrer qualquer mercado relevante na primeira tossida? A resposta é simples, em nenhum. Todo o ecossistema do crédito privado americano repousa sobre a premissa implícita de que, se a coisa apertar, o Federal Reserve aparece com a mangueira de liquidez. É a velha história da privatização dos lucros e socialização dos prejuízos, só que dessa vez com nome chique, sigla em inglês e roadshow em Manhattan. O contribuinte americano não votou para garantir o spread de fundos de crédito alternativo, mas vai garantir, queira ou não, porque o sistema foi construído para que essa fosse a única saída politicamente viável quando o problema aparecer.

E o problema vai aparecer. Não porque a New Mountain seja particularmente mal gerida, possivelmente é até uma das mais competentes do setor, mas porque toda estrutura de crédito construída em cima de juros artificiais carrega dentro de si o gene da própria correção. Quando as taxas reais voltam ao território de gente grande, a matemática que sustentava as operações simplesmente para de fechar. Empresas que pareciam saudáveis com custo de capital de cinco por cento descobrem que são insolventes com custo de nove. Fundos que prometiam retornos de doze por cento ao ano descobrem que estavam, na verdade, distribuindo o próprio principal disfarçado de juros. É um filme antigo, com elenco novo e cenário renovado, mas com o mesmo desfecho previsível.

O que se vê nessa emissão de cento e cinquenta milhões é um título precificado, uma manchete neutra, uma nota de rodapé num dia comum de mercado. O que não se vê é a montanha de incentivos distorcidos que tornou possível essa captação, o exército de funcionários públicos monetários que fabricou o ambiente em que ela floresce, e a conta futura que será apresentada aos pagadores de imposto quando a maré baixar. Toda vez que o dinheiro é fabricado em vez de poupado, alguém em algum lugar paga a diferença, geralmente quem menos pode e quem menos entende o que está acontecendo. A próxima crise de crédito não vai chegar como tsunami, vai chegar como vazamento lento numa parede que ninguém quis examinar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.