A Newell Brands, aquela conglomerada americana que fabrica desde caneta marca-texto até garrafa térmica, divulgou que está avançando no plano de recuperação e, pasmem, reduzindo endividamento. As ações reagiram positivamente, analistas de banco escreveram relatórios elogiosos, e a Bloomberg tratou o assunto como novidade digna de manchete. Ora, pagar dívida é a coisa mais elementar que uma empresa pode fazer para provar que está viva. Quando isso vira notícia extraordinária, o problema não está na Newell, está no padrão de comportamento corporativo que tornou o endividamento perpétuo a norma e a solvência a exceção.

É preciso entender o pano de fundo. Durante mais de uma década, com juros artificialmente esmagados pelo Federal Reserve, alavancar-se era considerado sinal de sofisticação financeira. CEO que não emitisse bond para recomprar ação era visto como pusilânime pelo comitê de remuneração. Executivo era premiado por ampliar múltiplo, não por fortalecer balanço. Empresa madura, com fluxo de caixa estável, foi transformada em máquina de engenharia financeira. Quando a maré subiu com o dinheiro grátis, todo mundo parecia gênio. Quando os juros voltaram para o território da realidade, apareceu a nudez coletiva, e a Newell foi apenas uma das muitas que precisou correr atrás do prejuízo acumulado no festival da liquidez.

Siga o dinheiro e a história se torna ainda mais didática. As dívidas contraídas na era da taxa zero foram gastas em aquisições supervalorizadas, dividendos generosos, recompras de ações em preços que hoje envergonham quem aprovou. Nada disso gerou produtividade real, nada disso criou vantagem competitiva duradoura. Foi festa financiada por poupador reprimido, por aposentado que viu seu rendimento evaporar, por qualquer pessoa que ganha em moeda estável enquanto o banco central destruía o valor dela para socorrer devedor imprudente. O ajuste que a Newell faz agora é, na prática, a devolução tardia de uma parte do que nunca deveria ter sido tomado emprestado nas condições em que foi.

Existe uma lição escondida aqui que ninguém quer verbalizar. Reduzir dívida é chato, é lento, é impopular no curto prazo porque significa menos margem para aventura e mais disciplina no cotidiano. Nenhum executivo sobe no palco de Davos para se gabar de ter cortado alavancagem. Nenhum ministro da Fazenda ganha reportagem elogiosa por reduzir gasto. A cultura do endividamento fácil corrompeu não apenas a corporação americana, corrompeu o Estado, corrompeu a família, corrompeu a psicologia econômica de uma geração inteira que aprendeu que pagar o que deve é castigo, não virtude. Quando uma empresa faz o básico e vira caso de estudo, é o retrato acabado da decadência do senso comum financeiro.

O paralelo com o Brasil é inevitável e desconfortável. Enquanto uma multinacional americana descobre que precisa devolver dinheiro tomado, nosso Tesouro segue rolando dívida em ritmo que faria qualquer credor privado exigir garantia real. Empresa estatal aqui não reduz endividamento, expande. Governo não corta gasto, cria imposto. Consumidor não poupa, financia geladeira em vinte e quatro vezes. Somos uma sociedade que trata solvência como excentricidade e alavancagem como direito adquirido. A Newell, ao menos, tem acionista para prestar contas e mercado para punir. O contribuinte brasileiro paga a conta e ainda é chamado de sonegador quando reclama.

A moral da história é simples e antiga. Riqueza real se constrói produzindo mais do que se consome, poupando parte do que se produz, investindo essa poupança em coisa que gere retorno superior ao seu custo. Tudo o mais é ilusão contábil sustentada por bomba monetária. O aplauso à Newell é, no fundo, um lamento involuntário pela raridade da prudência. Quando pagar o que se deve virar novidade jornalística, saiba que a civilização financeira está pedindo socorro em silêncio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.