A Nexteq, aquela companhia britânica que fornece telas e periféricos para máquinas caça-níqueis e para a indústria de games, anunciou na semana passada que sua receita despencou 34% no primeiro semestre. Os executivos culparam a "fraqueza persistente no setor de games", como se estivessem falando de um fenômeno meteorológico, algo imprevisível que caiu do céu sobre suas planilhas. Quer dizer, ninguém viu nada, ninguém previu nada, ninguém tem responsabilidade sobre nada. A receita simplesmente evaporou, meu senhor, coisa da natureza.

Olha, é preciso ter uma dose considerável de amnésia seletiva para tratar o colapso do setor de games como surpresa. Entre 2020 e 2022, com o mundo trancado em casa e as bancas centrais imprimindo moeda como se papel fosse commodity infinita, o consumo de eletrônicos, consoles e periféricos explodiu de forma completamente artificial. Nvidia, AMD, fabricantes de placas, montadoras de PC, todos foram inundados por uma onda de demanda que ninguém teve a coragem intelectual de perguntar de onde vinha. Vinha da impressora, obviamente. Vinha do cheque de estímulo americano, do auxílio emergencial brasileiro, do quantitative easing europeu, de trilhões de dólares fabricados do nada e despejados no colo do consumidor médio, que naturalmente foi gastar em coisas que dão dopamina rápido.

Me diz uma coisa: o que acontece com uma indústria que dimensiona sua capacidade produtiva com base em uma demanda que era ficção monetária? Ela investe em fábrica nova, contrata gente, assina contrato de fornecimento gigante, projeta receita crescente para os próximos cinco anos, e depois, quando o pó de serragem monetário assenta, descobre que metade daquela clientela era miragem. A Nexteq não está sofrendo uma crise de mercado; está sofrendo a correção de um cálculo econômico distorcido. Quando o preço do dinheiro é fixado artificialmente em zero por uma década, ninguém consegue calcular direito o que produzir, quanto produzir e para quem produzir. Todo mundo chuta no escuro achando que está fazendo ciência.

E siga o dinheiro, porque é aí que a história fica interessante. As grandes beneficiárias do boom pandêmico não foram os consumidores, que hoje amargam inflação persistente e prestação de cartão de crédito a taxas escorchantes. Foram os fundos que compraram ações de tecnologia em 2020, os executivos que exerceram stock options em 2021, os bancos que emprestaram a juro baixinho e agora rolam a dívida a juro alto, e claro, os próprios governos, que financiaram déficits monstruosos com moeda depreciada e passaram a conta adiante. A Nexteq é apenas um dos muitos pequenos náufragos boiando nos destroços dessa festa. O anfitrião já foi embora, e quem ficou lavando louça é o acionista minoritário.

O mais tragicômico é ouvir os analistas de mercado tratando a queda como "reajuste cíclico" ou "normalização pós-pandemia", vocabulário de eufemismo que serve para não dizer o que precisa ser dito. Não houve reajuste; houve intoxicação seguida de sobriedade forçada. Não houve normalização; houve o retorno tardio da gravidade a um setor que passou três anos flutuando na estratosfera do crédito fácil. E não vai parar na Nexteq. Ainda virão as demissões nas grandes empresas de games que ninguém quer noticiar direito, as revisões de guidance de fabricantes de hardware, os fechamentos de estúdios independentes que existiam apenas porque investidor com dinheiro barato precisava colocar em algum lugar.

Fica a lição que ninguém quer aprender: toda vez que o Estado, através de seu banco central, resolve brincar de Papai Noel monetário, alguém no futuro paga a conta em capacidade produtiva desperdiçada, empregos destruídos e poupança evaporada. O consumidor britânico que hoje não compra periférico novo não é vilão da história; é vítima que finalmente acordou para o fato de que seu salário compra menos porque durante três anos o governo dele fingiu que dinheiro cresce em árvore. A Nexteq caiu 34%, e este é apenas o primeiro capítulo de uma ressaca que ainda vai render muitos títulos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.