A Nissan acaba de fazer aquilo que todo planejador central detesta, ela leu a planilha, olhou para a demanda real e desligou a tomada. A produção de veículos elétricos na fábrica americana está cancelada, e com ela cai por terra mais um capítulo daquela novela em que burocratas de gravata decidem, do alto de seus gabinetes refrigerados, qual será o futuro da mobilidade humana. O consumidor, esse personagem inconveniente que insiste em ter preferências próprias, simplesmente não apareceu para comprar o sonho que lhe venderam.

Olha, é preciso ter alguma coragem cínica para continuar chamando de mercado um setor que sobrevive amamentado em crédito tributário, subsídio direto, mandato regulatório e tarifa protecionista contra o concorrente chinês. Tira a mamadeira fiscal e o bebê não anda. A Nissan não cancelou nada por capricho, cancelou porque a conta não fecha mesmo com o contribuinte americano pagando metade do brinquedo via Inflation Reduction Act. Quando nem o subsídio salva, é porque o produto não tem mercado, e o que não tem mercado não é indústria, é hobby caro financiado à força.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais saborosa. Bilhões foram despejados na cadeia do elétrico nos últimos anos, lítio, cobalto, baterias, estações de recarga, lobistas em Washington, consultores em Bruxelas, ONGs que vivem de relatório climático. Cada dólar desse fluxo saiu do bolso de alguém que preferia gastar em outra coisa, talvez no aluguel, talvez na escola do filho, talvez num carro a gasolina que custa metade e funciona no inverno do Michigan sem perder autonomia. Esse alguém nunca foi consultado, apenas tributado. O emprego criado na fábrica de baterias todo mundo viu na foto inaugural com o governador sorrindo, os empregos destruídos pelo imposto que financiou a fábrica ninguém vai contar, porque não dão capa de revista.

Quer dizer, o roteiro é antigo e sempre o mesmo. Um grupinho de iluminados decide que sabe melhor do que milhões de motoristas o que é bom para o planeta, para a indústria e para o futuro. Decreta metas, proíbe motores, subsidia favoritos, taxa concorrentes, e quando a realidade teima em desobedecer, culpa o populismo, o lobby do petróleo, o eleitor ignorante, qualquer coisa menos a própria arrogância de imaginar que conhecimento disperso entre bilhões de cabeças pode ser substituído por um comitê em Davos. A Nissan apenas teve a honestidade contábil de admitir antes dos outros que o rei está sem roupa.

E note bem o detalhe delicioso, a montadora não está abandonando os Estados Unidos, está apenas redirecionando capital para o que de fato vende, híbridos e veículos a combustão. O capitalismo, quando deixado em paz por cinco minutos, faz isso naturalmente, realoca recursos para onde há demanda genuína. O problema é que ele raramente fica em paz cinco minutos seguidos, porque sempre aparece um burocrata com uma planilha de Excel, uma meta para 2035 e a certeza inabalável de que desta vez vai dar certo. Não vai. Nunca deu. A história econômica do último século é um cemitério de planos quinquenais com nomes diferentes.

O recuo da Nissan deveria servir de lição, mas não servirá. Em poucos meses virá o próximo pacote de socorro, a próxima rodada de incentivos, o próximo discurso emocionado sobre transição energética, e o contribuinte continuará pagando a conta de uma festa para a qual não foi convidado. Enquanto isso, lá no posto de gasolina, o sujeito comum continua escolhendo o carro que cabe no orçamento e leva a família inteira para a praia sem precisar parar duas vezes para recarregar. Esse sujeito sabe de economia mais do que ministério inteiro. Só não tem assessoria de imprensa.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.