O Nordea Bank, maior instituição financeira dos países nórdicos, fechou o primeiro trimestre de 2026 com crescimento robusto de receitas, margem financeira saudável e retorno sobre patrimônio que faria qualquer banqueiro brasileiro engasgar com o cafezinho. O número, por si só, é trivial. Banco grande em país sério ganhando dinheiro é novidade tanto quanto padre rezando missa. O que interessa não é o resultado, é o contexto em que esse resultado foi produzido, e é aí que a análise começa a incomodar.
Veja bem, o nórdico opera num ambiente onde a taxa básica de juros ainda guarda alguma relação com a realidade produtiva, onde o regulador não muda a regra do jogo no meio da partida, e onde o contribuinte, por mais sobretaxado que seja, ao menos não acorda com o Tesouro anunciando uma nova "contribuição temporária" que, como todos sabem, virará permanente antes do fim do ano fiscal. Dentro desse ecossistema relativamente previsível, um banco que faz o feijão com arroz da intermediação financeira, capta barato, empresta um pouco mais caro, gerencia risco, entrega lucro. Quer dizer, é o básico funcionando. Do outro lado do Atlântico, o básico virou milagre.
E aqui vale uma observação impopular. Boa parte do que se chama de "eficiência bancária europeia" é, na verdade, o resultado invisível de décadas em que a moeda local, apesar de toda a impressão descontrolada do BCE, ainda é levada mais a sério do que a nossa no pior dia dela. Quando você tem previsibilidade monetária, mesmo imperfeita, o capital se organiza em prazos longos, o crédito se alonga, o spread se comprime naturalmente pela concorrência. Quando você não tem, o banco cobra o que cobra porque precisa se proteger de um governo que muda de ideia a cada nova pesquisa eleitoral. O spread escandaloso do banco brasileiro é, em grande parte, prêmio de risco soberano disfarçado de ganância privada.
Me diz uma coisa: você já parou para pensar por que o Nordea, operando em mercados maduros, consegue crescer dois dígitos num trimestre sem precisar ser salvo, subsidiado ou blindado por alguma linha emergencial do banco central? Porque o modelo dele não depende de capturar o regulador, não depende de lobby no parlamento, não depende de renovar dívida pública num leilão onde o Tesouro é o único comprador interessante. Ele depende de clientes, concorrência e gestão de risco. É rudimentar. É honesto. É exatamente o que o arranjo brasileiro tornou quase impossível, porque aqui o melhor negócio bancário continua sendo financiar o Leviatã a taxas indecentes, com o dinheiro que deveria estar irrigando empresa pequena e crédito imobiliário decente.
O ponto final é desconfortável. Cada vez que uma instituição estrangeira divulga resultado sólido obtido em ambiente de regras estáveis, o que está sendo demonstrado, ainda que ninguém queira admitir, é o custo invisível da nossa própria escolha histórica. A escolha de tratar o sistema financeiro como balcão de arrecadação disfarçada, a escolha de chamar de "política pública" o que é apenas redistribuição de rentismo, a escolha de achar que aperto regulatório resolve um problema que foi criado por excesso de intervenção anterior. O lucro do Nordea não é um escândalo. O escândalo é o que ele revela sobre o que aceitamos como normal. Banco bom não é o que tem margem gorda; é o que opera num país onde a margem gorda não precisa blindar ninguém do próprio governo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.