Quer dizer, uma executiva de uma empresa de energia renovável foi a um evento do HSBC em Hong Kong e, diante de uma plateia de banqueiros e gestores de fundos, anunciou com a solenidade de quem descobre a roda que a solução para a segurança energética mundial são, pasmem, as energias renováveis. Christine Healy, presidente e CEO da Northland Power, olhou para o conflito no Oriente Médio e enxergou ali não a tragédia humana, não a complexidade geopolítica de décadas, mas uma oportunidade de marketing. O Oriente Médio pega fogo e a executiva enxerga um PowerPoint. Isso não é análise, é pitch de vendas com verniz de estadismo.

Me diz uma coisa, desde quando a opinião de quem vende o produto serve como diagnóstico neutro sobre a necessidade do produto? Seria como pedir ao dono de uma rede de farmácias que avaliasse se a população precisa de mais remédios. A resposta é sempre sim, e o motivo nunca é a saúde pública, é o balanço trimestral. A Northland Power opera parques eólicos e solares no Canadá, na Europa e na Ásia. Cada centavo de subsídio governamental para "transição energética" vai direto para o caixa de empresas como a dela. Cada regulação que encarece o petróleo e o gás natural é uma vantagem competitiva artificial que ela não precisou conquistar no mercado, mas que recebeu de presente dos burocratas. O conflito no Oriente Médio é, para esse tipo de executivo, o que uma tempestade é para o vendedor de guarda-chuvas: não uma catástrofe, mas uma estação de vendas.

Olha, o truque é antigo e funciona sempre da mesma maneira. Primeiro, cria-se o pânico: a dependência de combustíveis fósseis é uma ameaça existencial. Depois, apresenta-se a solução que, coincidentemente, exige trilhões em investimento público e privado direcionado para um setor específico. Em seguida, governos obedientes criam metas de descarbonização, oferecem créditos fiscais, garantem preços mínimos de compra de energia e punem quem insiste em usar a fonte mais barata e disponível. O contribuinte financia a brincadeira e o consumidor paga a conta de luz mais cara, mas ninguém vê esses custos porque eles estão espalhados, diluídos, escondidos em tarifas e impostos. O que se vê é o parque eólico reluzente na costa. O que não se vê é a fábrica que fechou porque a energia ficou cara demais, o emprego que deixou de existir, a família que escolheu entre aquecer a casa e comprar comida. Na Alemanha, que abraçou as renováveis como religião de Estado com a Energiewende, o preço da eletricidade para o consumidor residencial é um dos mais altos do mundo. Segurança energética, chamam eles.

E tem a questão que ninguém nesse tipo de evento bancário ousa levantar: renováveis, por definição, são intermitentes. O sol se põe, o vento para. Toda matriz que depende majoritariamente de eólica e solar precisa de backup, e esse backup é quase sempre gás natural ou, nos países mais sérios, nuclear. A Alemanha desligou suas usinas nucleares e agora queima carvão nos dias sem vento. A Califórnia tem apagões programados no verão enquanto se gaba de suas metas climáticas. Chamar isso de "segurança energética" é um exercício de linguagem digno de um romance distópico, onde as palavras significam o oposto do que dizem. Segurança energética real significa abundância, previsibilidade e custo baixo. Significa que quando você aperta o interruptor, a luz acende, independentemente de estar ventando ou não. E isso, até hoje, quem garante são os hidrocarbonetos e a energia nuclear, não os painéis solares que a Northland Power quer que os governos subsidiem.

O cenário é sempre o mesmo: uma cúpula de investimentos, executivos de terno, jornalistas financeiros reproduzindo aspas como se fossem verdades reveladas, e a narrativa de que o dinheiro público precisa fluir numa direção muito específica, que por acaso é a direção do bolso de quem está falando. O HSBC, que organizou o evento, administra fundos ESG bilionários que investem pesadamente em renováveis. A Northland Power precisa de capital e de regulação favorável para crescer. Os governos precisam de uma narrativa palatável para justificar os trilhões que estão torrando. Cada um alimenta o outro num ciclo que o contribuinte financia e o consumidor paga, mas do qual nenhum deles participa como convidado. Quando o interesse privado se disfarça de interesse público, quando o lucro se veste de altruísmo e a dependência de subsídio se chama "segurança", estamos diante da mais velha artimanha do poder econômico: privatizar os ganhos e socializar os custos. Christine Healy não está errada em querer vender seus moinhos de vento. Está errada em fingir que é você quem precisa deles.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.