A notícia chega embrulhada em papel de presente. Northrop Grumman, uma das quatro gigantes do complexo industrial-militar americano, acaba de assinar contrato de US$ 4,84 bilhões com o Exército dos Estados Unidos. O comunicado é seco, técnico, quase entediante, e é exatamente esse o truque. Quando um número desse tamanho é apresentado como rotina burocrática, o cidadão médio bocejará e virará a página. E é justamente aí que mora o problema: quatro bilhões e oitocentos e quarenta milhões de dólares não são rotina de coisa nenhuma, são o produto do trabalho de milhões de contribuintes que jamais foram consultados sobre como preferiam gastar aquilo.
Vale a pena olhar para o mecanismo. O Pentágono trabalha, há décadas, com um clube fechadíssimo de fornecedores. Lockheed Martin, Boeing, Raytheon e a própria Northrop se revezam nos contratos como quem divide fatias de bolo em festa de aniversário de família. A concorrência, no sentido em que qualquer padeiro de esquina entende a palavra, simplesmente não existe. Os preços são negociados, revisados, inflados e revisados de novo, sempre com a mesma justificativa: segurança nacional, tecnologia sensível, exigências únicas. Traduzindo para o português dos vivos: o freguês não tem para onde correr, e o fornecedor sabe disso.
Siga o dinheiro e o quadro fica ainda mais interessante. Executivos do Pentágono aposentam-se e, alguns meses depois, aparecem em conselhos consultivos das mesmas empresas que negociavam contratos com eles. Congressistas com bases eleitorais em estados que sediam fábricas dessas gigantes votam, com precisão de relógio suíço, por orçamentos militares crescentes. A porta giratória gira tão rápido que ninguém consegue mais dizer onde acaba o funcionário público e onde começa o lobista privado. E o contribuinte americano, esse anônimo pagador de contas, continua acreditando que vive numa economia de livre mercado.
Há também aquilo que ninguém vê. Cada dólar redirecionado para essa festa contratual é um dólar que não financiou um pequeno negócio, não pagou um professor de escola pública, não permaneceu no bolso da família que o produziu. O emprego criado na linha de montagem da Northrop é visível, celebrado, fotografado. Os empregos que não existiram porque o imposto sugou o capital necessário para criá-los são fantasmas estatísticos, invisíveis por definição. E, no entanto, são reais. Toda decisão de gasto público destrói alternativas silenciosamente, e o silêncio é a assinatura do prejuízo bem escondido.
O mais curioso é o culto à inevitabilidade. Repete-se, em coro treinado, que esses gastos são necessários, que o inimigo está à porta, que qualquer questionamento é ingenuidade ou traição. É a velha fórmula: fabrique-se um perigo suficientemente abstrato, produza-se uma solução suficientemente cara, e proíba-se qualquer debate sob pena de rótulos infamantes. Funcionou com o comunismo, funcionou com o terrorismo, funciona agora com a rivalidade chinesa. Muda o figurino, o roteiro é o mesmo, e a bilheteria vai sempre para os mesmos endereços.
Quatro bilhões e oitocentos e quarenta milhões de dólares. Se cada centavo dessa quantia fosse submetido ao escrutínio que qualquer dona de casa aplica à conta do supermercado, o país seria outro. Mas não é, e não será, enquanto o gasto militar for tratado como assunto de sacerdotes iniciados e não como o que efetivamente é: dinheiro alheio sendo transferido, sem consentimento genuíno, para bolsos muito específicos. O império, dizia-se antigamente, quebra pelas bordas antes de quebrar pelo centro. Este contrato é mais um tijolo retirado da parede que ainda parece firme.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.